Entretenimento

  1. Entretenimento
  2. Entretenimento
  3. Top 5 musical: brasileiras à frente do seu tempo
Imagem: Reprodução | letras.mus.br

Top 5 musical: brasileiras à frente do seu tempo

Algumas mulheres que espezinharam do óbvio papel de “Musa” para transcender à própria arte e fazer história


Por Bruno Matos | Equipe RádioCast98

Rebeldes, desajustadas, inapropriadas...esses seriam seus adjetivos mais brandos. Se hoje ainda temos que nos manter vigilantes acerca de qualquer retrocesso para com os direitos e expectativas do papel da mulher em nossa sociedade, saiba que houve um tempo em que, a maneira com a qual lidamos atualmente com essas questões, seria simplesmente inimaginável. 

Fundado sobre as raízes sólidas do patriarcado, o Brasil viveu uma verdadeira revolução nesse sentido. Como uma guerra de trincheiras, sendo conquistado centímetro à centímetro, metro à metro, através da ação de diversas mulheres implacáveis que se recusaram à caber no estreito espaço que era tão “gentilmente” concedido.

Elas atuaram e atuam nos mais diversos campos, e na música, encontraram um terreno fértil para desafiar convenções. Hoje no RádioCast, vamos falar de algumas mulheres que espezinharam do óbvio papel de “Musa” para transcender à própria arte e fazer história.

Esse é o nosso Top 5 “musical”, Brasileiras à frente do seu tempo.

5. Cássia Eller

No quinto lugar vamos com a dona de uma das vozes mais singulares da música brasileira.

Olhando para o todo, a sensação e de que Cássia Eller era uma permanente espécie de “quebra de expectativa”. Uma textura de voz crua, rouca, agressiva que ao mesmo tempo conseguia ser suave e extremamente melódica. Uma mulher capaz de exibir os seios para milhões de pessoas no Rock in Rio, ao mesmo tempo que carregava uma personalidade tímida e até introspectiva.

Um talento difícil de definir e impossível de não se render. Uma crooner irresistível, que passeava por diversos gêneros com tamanha destreza que, mesmo interpretando um clássico do samba ou um grande sucesso da icônica Edith Piaf, ainda assim, era considerada uma cantora de rock. 

Não havia nada que Cássia não pudesse fazer. Filha de um militar com uma dona de casa, ela enfrentou muitas barreiras para despontar na música. A carioca estava sempre se mudando com a família e, sem poder criar raízes, demorou para engrenar. Mas talvez por esse mesmo motivo, conseguiu abarcar tantas referências musicais distintas. 

Cassia Eller foi desde corista em óperas, até cantora de forró, tendo participado do primeiro trio-elétrico do planalto, até que aos poucos, foi encontrando sua própria linguagem.

Os anos 90 foram seu auge. A partir do lançamento do primeiro disco a artista foi enfileirando sucessos, um atrás do outro. Ao todo foram sete álbuns até seu falecimento prematuro em 2001. 

4. Elza Soares

Recentemente perdemos “A voz do Milênio”. E se você só conheceu Elza Soares através deste título concedido pela BBC de Londres, é provável de que pouco saiba sobre sua longa trajetória, cheia de altos e baixos, que pavimentaram mais de sete décadas de sucesso. Em uma composição de Chico Buarque, ela é descrita como “Dura na queda”. E não é à toa.

Nascida em uma família bem humilde no Rio de Janeiro, no início dos anos 30, Elza, a menina que vivia cantarolando pelos cantos do cortiço, teve sua infância interrompida aos 11 anos, quando foi obrigada a se casar com um amigo do pai. Seu primeiro filho veio aos 13 anos de idade. A adolescência foi marcada por uma série de agressões e violências sexuais que marcaram sua vida e sua arte. 

A primeira apresentação pública aconteceu no popular programa de calouros do radialista Ary Barroso. Mas ela ainda não estava em busca de fama, reconhecimento, e sim do prêmio em dinheiro que serviria para tratar o filho doente, já que contar com a família não era uma opção.

O curioso é que já, naquele mesmo dia, sua personalidade única viria à tona. Ao se deparar com aquela menina, toda esfarrapada, pesando cerca de 32 quilos, o apresentador jocosamente pergunta: De que planeta você veio? E ela, sem titubear responde: Do planeta fome!

O perfil provocativo, petulante e “sem papas na língua” permeou toda sua carreira. Mas o prêmio daquele dia não a livraria de todas as mazelas de sua condição. Nos anos seguintes, Elza perdeu dois filhos por desnutrição, outra sequestrada e, ao se tornar viúva, teve que arcar com todas as despesas dos demais. 

A virada só se daria na década de 60, quando, ao vencer mais um concurso de calouros, conseguiu assinar um contrato fixo, passando, enfim, a viver da música. 

Outro momento marcante da cantora foi seu casamento com Garrincha. Eles se conheceram na Copa de 62 no Chile. Foram 16 anos de uma união, marcada por diversos casos de agressão e sofrimento em virtude do quadro de alcoolismo do jogador. 

O retrato mais sincero da vida conturbada da cantora pode ser visto na letra de Maria da Vila Matilde, um hino do movimento feminista que expõe a faceta mais proeminente de toda obra de Elza Soares: a resistência.

3. Rita Lee

Uma das mulheres mais influentes do Brasil assume a nossa medalha de bronze. Filha de um imigrante americano com uma pianista brasileira, a paulista começou na música aos 15 anos, e tocando bateria. 

Cantora, compositora, multi-instrumentista, atriz, escritora e ativista. Tudo vem da rainha do Rock Brasileiro. Tropicalismo, pop rock, dico, new wave, MPB, bossa nova. Tudo isso é Rita Lee. Aos 19 anos, se juntou aos irmãos Sérgio e Arnaldo Baptista para fundarem a lendária banda Os Mutantes. E, a partir dali, participou de importantes revoluções no mundo da música, como a polêmica introdução da guitarra elétrica no Brasil dos anos 70. 

Suas canções, em geral sempre foram regadas a uma boa dose de ironia ácida e reivindicações da independência feminina, seja junto ao grupo que a lançou, ou na sua fase solo, que a rendeu a expressiva marca de 55 milhões de discos vendidos e uma infinidade de hits de sucesso. 

Hoje, distante dos palcos para cuidar de sua saúde, Rita Lee conta com seu inseparável companheiro Roberto de Carvalho, parceiro na arte e na vida desde 1979. São 43 anos de união estável, o que, para os dias de atuais, pode ser considerado como um marco “excêntrico”, sobretudo pra quem já foi taxado como uma rockeira maluca, sem juízo. Taí, mais um ponto para a ironia de titia Rita Lee.

2. Elis Regina

É impossível ver uma lista séria de “melhores cantoras brasileiras de todos os tempos” sem constar o nome de Elis Regina no topo. Simples assim. De “Estrelinha do rádio gaúcho” até ser comparada internacionalmente com Ella Fitzgerald e Billy Holliday, foi uma longa jornada, repleta de desafios, performances avassaladoras e muitas polêmicas fruto de uma personalidade sem freios, que não tinha receio de posicionar mesmo nos famigerados anos de chumbo da Ditadura Militar.  

Os anos 60 foram marcados pelos Festivais da Canção, capazes de parar o país, fazendo despontar grandes nomes da nossa música. E entre eles, estava o incontestável talento de Ellis Regina, que conseguia se descolava da estética da Bossa Nova pelo uso de sua extensão vocal e de sua dramaticidade interpretativa.

O sucesso foi tão grande que acabou lhe rendendo um convite para comandar, ao lado de Jair Rodrigues, um dois mais importantes programas de música popular brasileira, O Fino da Bossa.  "Madalena", "Águas de Março", "Atrás da Porta", "Como Nossos Pais", "O Bêbado e a Equilibrista", são incontáveis sucessos ao longo dos anos, que foram dourados não só para ela, mas também para os artistas que ela acabou lançando.

Sim, Elis fazia questão de colocar em seu repertório músicas de compositores iniciantes, que passavam a ser conhecidos através da voz da Pimentinha. Milton Nascimento, Ivan LinsBelchiorRenato TeixeiraAldir Blanc, João Bosco, todos eles surgiram por intermédio de Elis.

Com os anos 70 veio o auge técnico da cantora. O aprimoramento, domínio vocal e confiança da cantora era tamanho que Elis foi a primeira pessoa a inscrever a própria voz como se fosse um instrumento, na Ordem dos Músicos do Brasil.

Falando nisso, uma questão importante se refere ao direito dos músicos brasileiros. Polêmica que Elis encabeçou, participando de diversas reuniões em Brasília. Além disso, foi presidente da AssimAssociação de Intérpretes e de Músicos. Elis Regina faleceu precocemente aos 36 anos, causando forte comoção nacional e deixando uma vasta obra para a música popular brasileira. 

1.Chiquinha Gonzaga

Encabeçando a lista do nosso Top 5 Musical, Mulheres à frente de seu tempo, viajamos bem mais ao passado. Mais precisamente para o século 19, pra falar de Chiquinha Gonzaga.

Pra entender o tamanho desta mulher, aí vai uma breve ficha técnica pra lá de resumida: compositora, pianista e maestrina. Primeira pianista de choro da história, autora da primeira marchinha de carnaval com letra ("Ó Abre Alas", 1899) e também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Ao todo, compôs músicas para 77 peças teatrais, tendo sido autora de cerca de duas mil composições em gêneros variados. De quebra, considerada a primeira compositora popular brasileira.

Isso, por sí só, já faria com que Chiquinha Gonzaga levasse o nosso ouro. Mas a coisa vai bem mais além. Desafiar convenções sociais pra ela é um domingo no parque.

Nascida em 1848, Francisca Edviges Neves Gonzaga era filha de um militar com uma mulher mestiça, neta de uma escrava. Chiquinha teve acesso à educação de qualidade e desde cedo se mostrou fascinada pelo universo da música. 

Conhecida pelo seu gênio forte, a jovem foi forçada a se casar aos 16 anos com um marechal de campo do Exército Imperial Brasileiro, com quem teve três filhos. Como o marido não apoiava a sua vocação musical, Chiquinha pediu divórcio. Imagina isso pra época! Como se não bastasse, pouco tempo depois ela se casou novamente e teve mais uma filha. Mas, sem ter o menor perfil de suportar infidelidades, se divorciou novamente.

Chiquinha teve que lidar com o preconceito da sociedade da época e a ausência dos filhos que ficaram com os pais. Ao mesmo tempo que realizava o sonho de viver de música, viajando pelo país, compondo e dando aulas de piano. 

Envolveu-se com a política, militando em prol da abolição da escravidão e pelo fim da monarquia. Chamava a atenção nas rodas boêmias do Rio por ser independente e por fumar em público, algo que não era considerado de bom tom para mulheres. Mas a sua maior polêmica, até para os padrões atuais, viria em 1899, quando aos 52 anos de idade se apaixonou, e se casou com um estudante de música. Ele tinha 16 anos.

Temendo o preconceito, Chiquinha escondeu o relacionamento o adotando como seu filho. Eles foram morar em Portugal, onde ela continuou sua carreira artística. A relação só seria descoberta após sua morte, por meio de cartas e fotos do casal que vieram à público. Totalmente alheio a isso, Chiquinha Gonzaga é uma das figuras mais importantes da nossa música, recebendo diversas homenagens ao longo dos anos por seu legado. 

Em maio de 2012 foi sancionada a Lei que instituiu o Dia da Música Popular Brasileira. Comemorado justamente no dia de seu aniversário.

Colunistas

Carregando...

Enquete

Carregando...

Saiba mais