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Imagem: Baixa Gastronomia / Instagram / Divulgação

Nem tudo é o que parece: 5 pratos com jeitão gringo, mas legitimamente brasileiros

Do bife à parmegiana ao pão francês, delícias gastronômicas que te enganam há anos


Entretenimento

Nenel Neto

Entusiasta dos botecos, apresentador do Buteco 98 e jornalista do perfil Baixa Gastronomia no Instagram


O bife à parmegiana nasceu em Parma, certo? E o pão francês, será que veio mesmo da terra de Zinédine Zidane? Bem, a torta holandesa só pode ter sido criada no país de Vincent Van Gogh. Não é possível!

Caros leitores e leitoras, nem tudo é o que parece ser.

Você sabia que muitos dos deliciosos pratos que homenageiam em seus nomes cidades ou regiões de outros países são, na verdade, criações brasileiras?

Não acredita? Então venha comigo que te contarei algumas histórias deliciosas.

Bife à parmegiana

Quem resiste a um bom parmegiana? Aquele bife empanado e coberto por molho de tomate e muçarela gratinada. Haja suculência!

Ele pode ser feito com filé mignon, alcatra, chã de dentro (também conhecido como coxão mole), patinho ou fraldinha. Hoje ainda existem as versões com frango e até com tilápia.

Mas o que muitos não sabem é que, apesar de ser chamado de à parmegiana, ou seja, à moda de Parma, cidade italiana da região da Emília-Romanha, o bife do qual falamos foi criado no Brasil, precisamente na cidade de São Paulo.

O primeiro restaurante a prepará-lo teria sido a extinta Cantina 1060, no bairro paulistano do Brás.

Especializada em comida do sul da Itália, a casa abriu em 1939 e preparou o prato desde o início de seu funcionamento, sempre acompanhado de arroz branco e batata frita.

Receita ítalo-paulistana, o bife à parmegiana teve como inspiração a parmigiana di melanzane. Melanzane significa berinjela. Portanto, é a berinjela à parmegiana, que, diga-se de passagem, não é um prato nascido em Parma, e sim na região da Campania, e foi batizado assim por causa do uso do queijo parmigiano reggiano.

No bife à parmegiana brasileiro houve a troca da berinjela pela carne. Na Itália, não existe prato igual ao criado no Brasil.

Embora tenha alma italiana, o bife à parmegiana é nosso!

(Nestlé / Divulgação)

Torta holandesa

Nem só de adaptações vive o brasileiro. Inventar também é com a gente.

Na Holanda, ninguém nunca ouviu falar em torta holandesa. Naturalmente, você não vai encontrá-la à venda. Se perguntados, os holandeses eventualmente respondem que torta holandesa para eles é torta de maçã (appeltaart).

A torta holandesa é feita com creme de leite, manteiga, açúcar e ovos. São duas camadas de biscoito maria, embaixo e em cima, e bastante creme no meio. Tudo coberto por chocolate e ornamentado nas laterais por vários biscoitos calipso.

Na verdade, a torta foi criada em Campinas, em 1990, por uma brasileira chamada Sílvia Maria do Espírito Santo. O nome foi em homenagem à família holandesa que a empregou como governanta quando Sílvia morou na Inglaterra, em 1989.

Como a própria Sílvia já disse em entrevistas, de holandesa a torta não tem absolutamente nada.

(Reprodução / Amopaocaseiro.com.br)

Pão francês (o nosso pãozinho de sal)

O pão francês não veio da França. Apesar do nome, ele é carioca da gema!

Quando a família real portuguesa veio para o Brasil, D. João VI e a corte estimularam o hábito de consumir o até então raro e caro pão branco de trigo, pois estavam acostumados a ele em Portugal.

De francês, o pãozinho brasileiro só leva o nome. Ele pode ter sido batizado assim porque começou a ser feito por padeiros franceses no Rio de Janeiro. O mais provável, porém, é o nome derivar da farinha. Quando branca e de trigo, era chamada de francesa em vários lugares do mundo, a começar pela Inglaterra. A expressão “pan francês” também foi comum na Espanha e na América espanhola dos séculos XVIII e XIX, significando um produto feito com farinha de trigo alva e sem misturas.

Alguns autores contam uma outra versão. A de que o pãozinho francês – assim chamado desde o início – surgiu por influência dos brasileiros que viajavam a Paris. Quando voltavam, morriam de saudade e suspiravam por um pão com as características do que haviam conhecido na Cidade Luz. Mas o historiador Carlos Didati, do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, suspeita tratar-se de história romântica, semelhante a que atribui aos escravos a invenção da feijoada, na verdade originária da cozinha regional portuguesa.

O pãozinho francês, hoje popularíssimo no Brasil, surgiu no período colonial, mas foi no começo do século 20 que se alastrou pelo país afora. Leva 2% de açúcar e 2% de gordura vegetal, em geral margarina. Tem pestana (o corte no alto, para abrir e crescer bonito), feita antes de entrar no forno, no qual ingressa com 65 gramas e sai com 50 gramas.

Encontramos produtos semelhantes no mundo inteiro, mas nunca iguais. Quem for a Paris e pedir nosso pãozinho francês não vai conseguir. O mais parecido é o pistolet (pistola), de origem belga.

(Baixa Gastronomia / Reprodução)

Arroz piemontês

Muita gente aqui em Belo Horizonte já deve ter comido o excelente arroz piemontês do restaurante Casa dos Contos, preparo que geralmente acompanha o filé à surprise, um bifão empanado e recheado com presunto e queijo.

Apesar do nome, o arroz piemontês nunca deu as caras na região do Piemonte, cuja capital é Turim, na Itália.

O preparo é fruto da improvisação do brasileiro numa época em que era quase impossível achar arrozes especiais para risoto no Brasil. Os cozinheiros tacaram manteiga, creme de leite e champignon no nosso arroz agulhinha de cada dia e estava criado o arroz piemontês.

A ideia era deixá-lo cremoso como um típico “risoto alla piemontese”.

(Reprodução / Magazine Luiza)

Pizza à portuguesa

A pizza à moda portuguesa nasceu no Brasil.

Existem duas versões a respeito da criação deste sabor amado por muitos brasileiros, inclusive por mim.

A primeira delas conta que, quando os primeiros imigrantes italianos chegaram aqui, ainda sem muito dinheiro, eles faziam suas pizzas em casa e as levavam para assar nos fornos das padarias, que eram dominadas pelos imigrantes portugueses.

Em algum momento, um português resolveu inovar no prato colocando os ingredientes típicos do seu país na cobertura de uma pizza. E pronto: assim surgiu a pizza à portuguesa.

Uma outra versão menos romantizada conta que, na verdade, a invenção do sabor foi motivada pela falta de ingredientes tradicionais italianos, o que levou as pessoas a usarem o que fosse de mais fácil acesso. Neste caso, ovos cozidos, cebola, azeitonas pretas, muçarela, pimentão verde, calabresa e presunto. A partir daí, o sabor foi batizado de portuguesa, já que as cores da cobertura da pizza lembravam um pouco as da bandeira de Portugal (vermelho, amarelo e verde representados).

Enfim, a pizza à portuguesa não existe em Portugal. Azar o deles.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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