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Esporte Internacional

Imagem: Divulgação/Conmebol

O que a conquista de Messi com a Argentina diz também sobre nossas vidas?

O 10 da seleção argentina conquistou seu primeiro título pelo país e libertou seus fantasmas no gramado do Maracanã

Esporte

Lohanna Lima

Réporter Esportiva


No último sábado, a Argentina saiu de uma fila de mais de 28 anos sem um título e libertou Lionel Messi do fantasma de nunca ter conquistado nada com a sua seleção. Veja só, alguém tão vitorioso, tão admirado, enaltecido e idolatrado também tem seus demônios, assim como todos nós. Messi, considerado por muitos um extraterrestre, é exatamente gente como a gente.

Se voltarmos há cinco anos, todos se lembrarão de um Messi apático, triste, frustrado que, de cabeça quente, prometia não mais voltar à seleção argentina após a perda de um pênalti na decisão da Copa América contra o Chile. Como esquecer aqueles dizeres “foram quatro finais e eu não consegui nenhum título, isso aqui não é para mim”?

As cobranças e duras críticas a Messi por seu desempenho com a seleção, mesmo em meio a uma carreira no Barcelona que pouquíssimos atletas vão alcançar, nos mostram como o sarrafo é alto para quem é diferente. A lógica é simples, mas meio cruel: se você oferece muito, esperam que você alcance um nível altíssimo de excelência em absolutamente tudo. O preço é alto sempre para quem tem mais recursos. Em um esporte coletivo, jogar todo peso de um fracasso nas costas do craque do time acontece com muita frequência, e o insucesso de toda uma geração fica quase todo em cima daquele que é o melhor, onde as responsabilidades deveriam ser melhor divididas.

Tive a oportunidade de ver Messi duas vezes pessoalmente na zona mista da Copa América de 2019, no Mineirão. Sou de uma geração que viu grandes embates entre brasileiros e hermanos na década de 90 e início dos anos 2.000. Se eu tivesse uma religião, ela seria aquele gol do Adriano, nos acréscimos da final da Copa América de 2004, enquanto Luís Fabiano queria brigar com todo mundo no banco de reservas. Respeito quem torce para a Argentina, mas eu não torço nem em par ou ímpar. Só que Messi é realmente diferente.

Ao pegar o corredor para o vestiário, ele hipnotizou a todos na zona mista. Pra mim, era como se estivesse vendo uma espécie de ser de outro planeta mesmo. Em volta, os olhares dos meus colegas de imprensa brilhavam e me traziam a seguinte sensação: se Messi joga e a gente pode ver de perto, trabalhando, é porque na nossa área nós vencemos também.

A conquista de Messi tantos anos depois com a sua seleção mostra que o universo não fecha os olhos para quem sonha e para quem trabalha duro. Messi é craque, gênio e um exemplo de atleta. É inacreditável pensar que ele chegou a dizer que algo relacionado ao campo e a bola “não era para ele”, como se não estivesse à altura de pertencer à seleção argentina pela ausência de títulos.

Na vida, muita gente que é mais ou menos em tudo que faz, se sente no direito de cobrar, criticar, desmerecer e encerrar carreiras por aí. Nem precisamos ir tão longe quanto o sofrimento de Messi por não conseguir ser o 10 do Barça também na seleção. Essas coisas acontecem corriqueiramente no nosso dia a dia, independentemente da nossa área de atuação. O que mais tem é gente determinando o fracasso dos outros com a desculpa da sinceridade, da experiência, do know how.

Messi ter se sentido fora de lugar dentro de sua seleção, sendo quem ele é, diz muito sobre como muitas vezes somos excessivamente duros com a gente mesmo e também sobre como nos deixamos levar pelo o que os outros dizem a nosso respeito, sim. Quiseram os deuses do futebol que um dos maiores jogadores da história se libertasse dos seus fantasmas no último sábado. É justo para ele e para quem ama verdadeiramente o futebol, além das bandeiras. Se alguém fica feliz por Messi, apesar da Argentina, é porque ele é realmente diferente.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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