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Bolsa fecha em queda de 4,87% após interferência de Bolsonaro na Petrobras

Dólar fechou em alta de 1,27%, a R$ 5,4539, maior nível desde 29 de janeiro

Por Estadão Conteúdo - Economia22/02/2021
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O Ibovespa teve variação de 6,7 mil pontos entre mínima e máxima desta segunda-feira, 22, algo não visto desde o pior momento da pandemia, em março, quando os ativos globais se preparavam para uma espécie de fim do mundo, e também no fim de abril, momento em que a ruidosa saída de Sergio Moro do governo trouxe volatilidade. No Brasil, a consumação da interferência no comando da Petrobras na sexta à noite e a promessa feita no fim de semana pelo presidente Bolsonaro, de que "tem mais por vir" e de que pode "meter o dedo" no setor elétrico, colocaram os ativos do País em espiral negativa desde a abertura, com dólar a R$ 5,53 na máxima do dia e perdas superiores a 20% para as ações ON e PN da Petrobras nesta segunda-feira.

Ao fim, o Ibovespa mostrava queda de 4,87%, aos 112.667,70 pontos, no menor nível desde 3 de dezembro (112.291,59), tendo chegado na mínima de hoje aos 111.650,26 pontos (piso intradia desde 2 de dezembro) saindo de máxima na abertura aos 118.388,07 pontos, com giro financeiro a R$ 84,3 bilhões na sessão, bem reforçado pelo vencimento de opções sobre ações. Em porcentual, a queda desta segunda-feira superou a de 28 de outubro (-4,25%), quando se esboçava a segunda onda de lockdown na Europa, e foi a pior desde 24 de abril (-5,45%) de 2020, dia em que o então ministro Sergio Moro deixou o cargo.

Perto do fim da sessão, a notícia de que um juiz federal de primeira instância em Minas Gerais determinou que o presidente Bolsonaro preste informações em 72 horas sobre a troca de comando na estatal levantou o temor de que a questão venha a ser judicializada, inclusive no exterior, observa um operador. Assim, na reta final, o Ibovespa voltou a perder a linha de 113 mil pontos, que havia sustentado em boa parte da tarde.

No mês, o índice da B3 passa a acumular desempenho negativo, em queda de 2,09%, elevando as perdas no ano a 5,33%. No encerramento, Petrobras ON cedeu 20,48%, a R$ 21,55, e a PN caiu 21,51%, a R$ 21,45, ambas pelo segundo dia na ponta negativa do Ibovespa - nas mínimas de hoje, foram respectivamente a R$ 21,35 e a R$ 21,40.

A decisão do governo de trocar o comando da Petrobras após os reajustes nos preços dos combustíveis tem viés negativo na análise de risco de crédito da estatal, segundo a Moody's, enquanto, para a S&P, a interferência pode afetar a lucratividade e o fluxo de caixa da empresa. Nesta segunda-feira, casas como XP, Bradesco BBI e Credit Suisse reduziram o preço-alvo e cortaram a recomendação para as ações da petrolífera - por sua vez, o JPMorgan rebaixou a recomendação para os bonds da empresa. "Evidentemente, temos uma situação negativa não apenas para os papéis da Petrobras, como também para os ativos brasileiros em geral, levando o mercado a reprecificar o 'risco Bolsonaro'", diz Pedro Paulo Silveira, gestor da Nova Futura Investimentos.

Colocando o cenário macro em revisão, a Ativa Investimentos prevê câmbio e juros mais elevados, deterioração fiscal possivelmente maior e PIB mais baixo. "O discurso dele (Bolsonaro) torna-se populista quando se vale de uma tentativa de colocar o povo como explorado. Ao afirmar que não vai interferir e adiciona um 'mas', ele está justificando a interferência, o que implica incoerência", observa em nota Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa.

O silêncio do ministro Paulo Guedes sobre a demissão sumária de Roberto Castello Branco, um liberal pós-graduado em Chicago indicado pelo próprio Guedes, também não passou despercebido.

"As ações preferenciais da Petrobras chegaram a valer R$ 6,70 em dezembro de 2015, no governo Dilma, quando ocorreu intervenção política parecida com a recente demissão do presidente da estatal pelo presidente da República", observa Erminio Lucci, CEO da BGC Liquidez. "Este tipo de interferência, populista de direita, é um déjà vu da política populista de esquerda adotada pelo governo da ex-presidente", acrescenta.

"A pergunta que se faz é como o ministro da Economia irá se posicionar diante da gravidade da decisão do Executivo em relação aos princípios do livre mercado e do liberalismo econômico", conclui Lucci, observando que "a interferência terá efeitos de longo prazo na percepção do investidor estrangeiro sobre o ambiente de negócios no País".

Assim, a onda de temor quanto a um Bolsonaro desgovernado, passando por cima do melhor aconselhamento econômico para buscar conforto direto junto ao eleitor de 2022, pôs não apenas a Petrobras, mas também as ações de outras estatais, como Banco do Brasil (ON -11,65%) e Eletrobras (ON -0,69%), entre as perdedoras do dia. Relato de que o presidente do BB, André Brandão, com quem Bolsonaro entrou em rota de colisão em janeiro, será o próximo da lista de demissões colocou as ações do banco bem à frente das perdas observadas no segmento nesta segunda-feira, com destaque também para Itaú PN (-7,28%) e Bradesco PN (-6,56%).

Apesar da sangria observada em empresas e setores de peso, houve alguns destaques positivos, como parte da siderurgia, com CSN em avanço de 1,47% e Usiminas, de 0,13%, ambos bem moderados no fechamento da sessão - outras empresas com receita em dólar, em alta nesta segunda-feira, foram melhor, como Klabin (+3,21%) e Suzano (+2,47%).

Na ponta do Ibovespa, Lojas Americanas mostrava alta de 19,88% no encerramento, à frente de Embraer (+7,40%) e de Cielo (+4,76%). Fatores intrínsecos a essas empresas justificam o descolamento observado ao longo da sessão: comunicado conjunto de que Americanas e B2W terão comitês especiais independentes para avaliar combinação de suas operações; a Cielo, possível oferta de aquisição primária (OPA); e Embraer, a perspectiva positiva de negociação entre a fabricante e a alemã Lufthansa sobre troca de pedidos de aeronaves

Dólar

O mercado de câmbio teve uma manhã de tensão, com intervenção do Banco Central e dólar batendo em R$ 5,53, em alta perto de 3%, repercutindo a decisão de Jair Bolsonaro de mudar o comando da Petrobras, dúvidas sobre o ajuste fiscal e exterior negativo. Nos negócios da tarde, o clima se acalmou um pouco e a moeda americana reduziu o ritmo de alta, segundo operadores, refletindo um movimento de correção dos exageros de mais cedo e realização de ganhos. A avaliação nas mesas de operação é que o câmbio vai seguir sob pressão nos próximos dias.

O dólar à vista fechou em alta de 1,27%, a R$ 5,4539, maior nível desde 29 de janeiro. No mercado futuro, o dólar para fevereiro subiu 1,57%, a R$ 5,4690. No final do dia, o peso mexicano acabou superando o real como moeda com pior desempenho hoje ante o dólar, considerando uma cesta de 34 divisas mais líquidas. "Durante a tarde foi passando um pouco o exagero, teve um pouco de realização após a forte alta", afirma o chefe da mesa de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem.

A segunda-feira começou com uma tempestade perfeita no mercado: exterior negativo, com temor de piora da inflação mundial e, no mercado doméstico, a mudança na Petrobras e promessa de Bolsonaro de mais medidas populistas pela frente reforçou a visão de piora fiscal e atrasos nas reformas. Para piorar, declarações em Brasília afirmaram que primeiro deve vir o auxílio emergencial para depois vir o corte de gastos.

O reflexo foi que o Banco Central precisou intervir para acalmar os ânimos dos investidores, vendendo ao todo US$ 3,6 bilhões, ajudando a dar certo alívio. No final da manhã, vendeu US$ 1 bilhão em swap (espécie de venda de dólar no mercado futuro), em dinheiro novo. Antes, havia feito leilão de linha (venda à vista de dólar com compromisso de recompra) de US$ 1,6 bilhão, para rolagem de contratos de março. E depois fez mais US$ 800 milhões em swap, também para rolagem.

Para Priscila Robledo, economista de América Latina em Nova York da Continuum Economics, consultoria de Nouriel Roubini, a tendência é de mais pressão no câmbio e nos juros pela frente por conta da interferência do governo na Petrobras. Há ainda o risco de afetar a confiança dos investidores, podendo assim ter impacto negativo na atividade econômica. "A decisão de substituir Castello Branco é negativa na medida em que a intenção de interferir na Petrobras fica clara. E a ameaça de que também haverá interferência no setor elétrico claramente não ajuda", comenta ao Broadcast.

"A troca do comando da Petrobras tem sido vista por muitos analistas como uma inflexão na gestão econômica do governo, o que aumenta a incerteza e potencializa a volatilidade do mercado", afirma o economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, em áudio. Para piorar, no exterior, ele ressalta que cresce a preocupação de que a volta da inflação possa levar os bancos centrais a retirarem parte dos estímulos extraordinários injetados na pandemia. Isso tende a fortalecer o dólar e aumenta a percepção de risco em relação a mercados emergentes, ressalta ele.

Juros

Os juros futuros fecharam o dia em alta consistente, mas longe das máximas atingidas pela manhã em reação à decisão do presidente Jair Bolsonaro de trocar o comando da Petrobras. O clima segue sendo de muita incerteza sobre uma guinada populista do governo que ameace a agenda liberal do ministro Paulo Guedes, mas os agentes encontraram à tarde algum consolo nas declarações do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em defesa da retomada da agenda das reformas, publicadas em sua conta no Twitter.

O dólar reduziu sua força ante o real e também à tarde o mercado conseguiu olhar com mais atenção para o conteúdo da minuta da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para destravar o auxílio emergencial, que surpreendeu positivamente. De todo modo, houve ganho importante de inclinação nesta segunda-feira, embora as taxas curtas tenham avançado com aumento das apostas de que o Copom terá de iniciar o ciclo de aperto monetário de maneira mais firme já em março, com elevação da Selic em 0,5 ponto porcentual. Não somente pela piora do risco fiscal mas também nova deterioração das estimativas de inflação e Selic trazidas pela pesquisa Focus.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou em 3,53% (regular e estendida), de 3,442% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 passou de 6,725% para 6,92% (regular) e 6,93% (estendida), tendo superado 7% nas máximas da manhã. A taxa do DI para janeiro de 2027 fechou a regular e a estendida em 7,57%, de 7,374% no ajuste anterior, com máxima de 7,72%.

A forte inclinação da curva refletiu ordens de stop loss e fundos ajustando o tamanho de suas posições. Além de ter indicado o general Joaquim Luna e Silva para o lugar de Roberto Castello Branco no comando da Petrobras, Bolsonaro sinalizou mais mudanças, prometendo "meter o dedo na energia elétrica".

Com os ajustes mais pesados sendo feito nas primeiras horas de negócios, à tarde houve um respiro, com o mercado se apegando às declarações pró-reformas de Arthur Lira, estabelecendo um calendário de votações, para ainda seguir acreditando na agenda liberal. Segundo Lira, em março começa a tramitar a Reforma Administrativa na Câmara, com previsão de aprovação em plenário "antes do fim do primeiro trimestre". A PEC Emergencial/Pacto Federativo, com cláusula de calamidade tem votação prevista para quinta-feira no Senado, disse.

A ponta curta foi alvo do reforço das apostas de aumento para a Selic em março e em maio, trazido pelo intervencionismo do governo após Bolsonaro reclamar dos preços dos combustíveis e também pelo "aumento da inflação de curto prazo", disse o trader de renda fixa da Terra Investimentos Paulo Nepomuceno. "O BC está atrás da curva e por isso vai ter de abrir o processo já com aperto de 0,5 ponto para tentar desinclinar um pouco a curva e evitar um ciclo muito longo", avaliou. Ele lembra que a Focus já trouxe hoje mediana do IPCA em 2021 a 3,82%, de 3,62% na semana passada e agora acima do centro da meta de inflação de 3,75%. A mediana para a Selic subiu de 3,75% para 4,0%.