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Opinião Paulo Leite: “FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO”

Ao aprovar sorrateiramente os repasses integrais de salários dos deputados, a Assembleia de Minas Gerais legisla em causa própria e prejudicam um estado quebrado, em tempos de crise

Por Paulo Leite - Política14/05/2020
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Nunca o dito popular foi tanto propositado como agora em Minas Gerais. Os deputados estaduais garantiram seu pirão com uma agilidade assustadora, nesse caso o melhor sinônimo de “assustadora” é imoral. 

No bojo de projeto de lei em que o executivo prioriza o pagamento das emendas parlamentares para a área da saúde, no combate ao novo coronavírus, suas excelências embutem substitutivo que significa o mesmo que colocar a faca no pescoço do Governador. 

Para entender melhor essa manobra carregada de doce velhacaria é preciso perceber o motivo que levou os deputados a legislarem em causa própria. 

Já combalidos em suas bases com a impossibilidade de cumprir com todas as emendas prometidas, isso em ano eleitoral é capital de valor inestimável, eles agiram rápida e sorrateiramente na colocação de artigos que obrigam o repasse das verbas garantido pela constituição para a Assembleia Legislativa, Poder Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública, de maneira integral, sem atrasos ou restrições, com a manutenção dos valores atuais e, aí a faca é empunhada, com o governo do estado passível de crime de responsabilidade pelo descumprimento o que poderia, em tese, levar ao impeachment do governador. 

No momento em que o governo atrasa e divide pagamentos e décimo terceiro para os servidores a inclusão desses artigos são um tapa na cara da sociedade.

O conteúdo do projeto de lei apresentado pelo Executivo e aprovado pelos deputados, traz a boa notícia de que, priorizando as emendas da saúde, os cofres públicos serão aliviados na sua já complicada situação, porém leva a reboque o ato rasteiro da colocação dos artigos em substitutivo no prazo final para votação, sem tempo para a colocação de destaques, imobilizando os deputados da base de apoio do governo e dando ao projeto aprovação unânime.

Enquanto casas do legislativo, Brasil afora, reduzem gastos, a Assembleia de Minas garante seu pirão e estende sua decisão a outros poderes que nada tem feito para reduzir gastos, nem em tempos de dificuldade financeira e nem em tempos de pandemia.

Enquanto milhões de brasileiros apertam seus cintos, reduzindo despesas e alguns esmolando favores, essas senhoras e senhores assaltam o cofre da viúva sem pudor ou remorso. Ora, alguns dirão, mas não se constitui assalto pois os repasses são definidos pela lei, porém, o contraponto a esse argumento é mais que legal, é moral, é humano.

Durmam felizes deputados, juízes, desembargadores, procuradores e promotores. Seus sonos são embalados pela insensibilidade que sempre lhes foi peculiar. Acostumados a desembarcar de seus carros, conduzidos por motoristas atenciosos em locais reservados, há muito o senso de realidade foi sepultado nas suas “inconsciências”

Porém lembrem-se: a sociedade acorda da letargia e atenta prepara suas armas para a guerra. O voto, o repúdio e o escárnio terão poder avassalador nessa reação.

Chamem as suas cozinheiras, melhor ainda, corram para os seus fogões e coloquem a água para ferver. Sua farinha está garantida, pelo menos nesse momento. Deliciem-se do pirão agora garantido, mas abaixem os olhos quando cruzarem os cidadãos comuns, pois eles lhes darão o merecido desprezo.