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Imagem: Estate of Ronald Read / Divulgação

Ficar rico: sorte ou competência?

Há como enriquecer sem entender nada de finanças?


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Samuel Barbi

Especialista em economia, entra ao ar às segundas-feiras com a coluna MundoZFundos, no RádioCast 98


Toda vez que falo sobre investimentos com alguém que não investe, percebo aqueles olhares de pena. Imagino que na cabeça dessas pessoas se passa o seguinte pensamento: “Lá está mais um viciado no cassino do mercado financeiro. Ou dá sorte e fica rico ou dá azar e perde tudo. Aposto que não dorme e fica cheio de úlceras no estômago de tanto desespero e overdose de café”

A reação posterior é quase sempre a mesma. As pessoas assumem que precisavam investir, mas é tudo tão complicado, nunca há tempo ou dinheiro para se dedicarem a isso. Perceba que os argumentos passam pelos quesitos de sorte e competência.

Falando sobre competência

Você consegue imaginar uma situação em que uma pessoa sem estudo, dedicação e formação vai ter uma melhor performance que outra capacitada? Seria possível uma pessoa comum desempenhar melhor que um cirurgião em um transplante de coração? Melhor que um engenheiro na construção de prédio? Pousar melhor que um piloto de avião? Apesar de ilógico, essas histórias ocorrem com frequência no mercado financeiro e nas finanças pessoais.

Ronald Read era um cara simples da zona rural de Vermont nos Estados Unidos, trabalhou 25 anos consertando carros em um posto de gasolina e outros 17 anos como faxineiro. Comprou uma casa simples de 12 mil dólares aos 38 e nela viveu toda sua vida. Seu passatempo era cortar lenha. Ficou viúvo aos 50 anos e não se casou mais. Read ganhou muitas manchetes em 2014, quando morreu aos 92 anos, com um patrimônio de 8 milhões de dólares, sendo 2 milhões doados para enteados e outros 6 milhões para o hospital e a biblioteca da cidade.

Richard Fuscone, por sua vez, foi executivo de um dos maiores bancos americanos, pós graduado e com tanto sucesso profissional que pôde aposentar aos 40 anos. Nos anos 2000, resolveu pegar um grande empréstimo para ampliar sua mansão de mais de 1,5 mil m², que já tinha 11 banheiros, 2 elevadores e 2 piscinas. Nas festas que dava em sua mansão, os visitantes dançavam num piso transparente sobre a piscina interna. A manutenção dessa propriedade custava mais de 90 mil dólares mês. Com a crise de 2008, dívidas altas e ativos sem liquidez o levaram à falência. A mansão que estava ampliando foi vendida por um valor irrisório, cerca de 1/4 do valor de avaliação

Aparentemente Ronald não tinha competência alguma, enquanto Richard parecia ter de sobra. O último faliu, o primeiro faleceu rico. Sorte, azar? Esses tipos de história parecem exclusivas do mercado financeiro, talvez até por isso exista essa grande associação com os cassinos.

Falando sobre sorte

Em 1973 foi realizado um estudo pelo professor Burton Malkiel da Universidade de Princeton, demonstrando que se você colocar uma venda nos olhos de um macaco e fizer ele jogar dardos sobre um jornal de finanças, ele é capaz de escolher ações mais rentáveis que uma carteira de selecionada pelos melhores gestores do mercado.

Inspirado nesse experimento, o perfil Monkey Stocks replica o experimento com uma máscara de macaco e um jogo de bingo. Todas as semanas são sorteadas 5 empresas que fazem parte do iBovespa, numeradas em ordem alfabética, de 1 a 93. É como se as ações fossem compradas ao preço do leilão de abertura da segunda-feira e vendidas ao preço de fechamento nas sextas-feiras. As ações do Macaco Zé fecharam a semana 160 com 49,24% de lucro, desde sua criação em 2019, já o iBovespa pro mesmo período teve valorização de 19,70%. Sorte?

Ronald enriqueceu investindo pouco a pouco, ao longo de muitos anos, aplicando sempre em grandes empresas (blue-chips), não se preocupando com as variações no valor de seu patrimônio ao longo dos anos e das crises. Seu foco era ter uma vida tranquila e equilibrada, fazendo aquilo que gostava. Richard perdeu tudo por um misto de imprudência e azar. O Macaco Zé está com azar, sua carteira rendeu -24,24% no ano passado, e sorte, porque sua constância na realização de investimentos leva quase invariavelmente para sucesso.

Há como enriquecer sem entender nada de finanças?

Minha resposta é sim, com muita sorte. Sem jogar não há sorte nem azar. Entretanto, o jogo financeiro depende menos da sorte que do comportamento, da sua psicologia financeira. A constância em gastar menos que se ganha e investir sempre é o que leva ao enriquecimento. 

É essencial começar cedo. Tempo é a parte mais relevante da equação de juros compostos, é o fator exponencial. O conhecimento e a competência vêm pela longa e constante exposição ao tema. Já a sorte, essa tem mais chance de aparecer para quem demonstra a maturidade e a competência adquiridas através do tempo. 

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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