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Economia

Uma pergunta específica tem me deixado obcecado: qual o tamanho ideal para uma base monetária? Eu tenho lido incansavelmente para tentar descobrir a verdade: artigos e livros sobre monetarismo, sobre economia tradicional, austríaca e comportamental, história e psicologia.

Embora essa pergunta manifeste-se em mim quase como um desejo espiritual, já não sei se consigo encontrar uma resposta. Entretanto, nessa jornada, acabei encontrando um tema para estudar de maneira despretensiosa, sem a ambição de chegar a qualquer lugar, mas como mera atividade recreativa. O assunto em voga é a relação dos seres humanos com a escassez.

Sempre me interessei pelo assunto. No começo, porque não conseguia entender a lógica de dizer que recursos eram escassos. Para mim, ignorante observador, os recursos eram abundantes. Fui entender a escassez com uma dose de física: dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Isso quer dizer que eu jamais poderia ser o legítimo proprietário de qualquer coisa infungível já possuída por alguém. Exemplifico: eu não consigo reivindicar a propriedade de uma casa em Sausalito, Califórnia, com vista para o mar, salvo se engajar em uma negociação com o proprietário e lhe pagar uma quantia absurda de dinheiro. A escassez, que eu não entendia, na verdade é simples - grande parte dos recursos in natura no planeta são finitos e infungíveis.

Não foi essa compreensão que me motivou começar a escrever. Num sábado a noite qualquer eu estava lendo o livro Misbehaving de Richard Thaler, quando algo me ocorreu: a música não era mais um recurso escasso.

Veja, quando eu era criança, só havia três formas de conseguir escutar minhas música favoritas quando eu quisesse. A primeira era comprando o LP do artista, o famoso disco de vinil. A segunda, comprando a fita cassete. A terceira, era comprar uma fita cassete e esperar tocar minha música favorita em alguma rádio. Quando ela tocasse, eu precisaria valer-me da destreza de um atleta olímpico para apertar o botão “REC”, caso contrário perderia o começo da música e aquelas horas de espera teriam sido desperdiçadas.

Eu tive uma infância privilegiada, minha casa contava com um enorme aparelho de som que tocava rádio, discos e fitas. Com esse aparelho, era possível gravar minhas músicas preferidas do rádio. Passado o tempo e a tecnologia evoluindo, ganhei de presente um vitrola portátil, que possuia uma tampa vermelha, que poderia ser usada do meu quarto para tocar meus discos favoritos. Naquele tempo, eu gostava bastante de discos dos meus programas de TV - Jiraya, Jaspion, Show da Xuxa e, como minha mãe possuía praticamente toda a coleção, dos Beatles.

A mídia musical era um recurso extremamente escasso. Artistas amealharam fortunas com a venda de discos. Durante muitos anos, existiu uma certificação de venda dos vinis, cuja “diamante” era transformada num presente para o músico que vendesse mais de 750 mil cópias. Essa escassez começou a diminuir com a era do CD-ROM. Essa nova mídia, bem mais barata, produzida em larga escala, contou com alguns fatores que impulsionaram a pirataria: o custo e capacidade de produção dos CDs, bem mais baixos que dos LPs; o advento do formato MP3 e, a revolução musical daquela época - o Napster.

O MP3 é um forma digital de se comprimir áudios com perda de qualidade praticamente imperceptível para a audição humana. Napster era um programa de compartilhamento de arquivos P2P. Essa combinação explosiva (para a indústria musical), foi a responsável por enterrar o conceito de escassez das mídias musicais. Desse ponto em diante, foi uma questão de tempo até que os artistas mudassem seu modelo de rentabilização para shows e ações de merchandising.

Um item que mudou consideravelmente minha experiência musical, foi a gravadora de CDs no meu computador doméstico. Combinado com os dois artigos anteriores, havia chegado o fim da era em que eu precisava adquirir um CD (pirata ou original) de uma banda, apenas por conta de duas músicas que, de fato, eu gostaria de escutar, sendo necessário pagar o preço por outras 18 que não faria a menor diferença na minha vida. Com algum tempo de organização, eu conseguia montar um CD com mais de vinte músicas, sendo que todas foram previamente escolhidas por mim.

Naquele ponto, ainda havia um certo nível de escassez, principalmente quando se estava no carro. Considerando que cada CD armazenava 20 músicas e, para meros fins exemplificativos, que cada música tivesse 3 minutos, um CD era capaz de te entreter por apenas uma hora. Em longas viagens, era necessário ter vários CDs a disposição.

Este não era o único problema da metodologia explicada. Para organizar os CDs com suas música favoritas era necessário ter um conhecimento indisponível do futuro. Quais os estilos músicas seriam colados naquele espaço de 20 músicas ou 60 minutos? Era possível misturar rock com samba e ter algum nível de harmonia? E, se no meio do CD, você mudasse de ideia? Também não era incomum que os CDs se arranhassem, causando a perda parcial ou total de seu conteúdo. E se você tivesse apagado o MP3 do seu computador por falta de espaço? Espaço em um disco rígido (HD), há não tantos anos atrás, também era um recurso extremamente escasso e caro.

Segundo seu próprio site, o Spotify é um software do ano de 2006. Não me recordo quando tive o primeiro contato com ele, mas com certeza foram vários anos após o seu lançamento, quando seu acervo musical já havia tornado-se descomunal e o uso de inteligência artificial já capaz de me ajudar a achar minhas música favoritas, que eu sequer me lembrava, simplesmente por buscar e escutar outras músicas capazes de revelar alguns padrões de gosto musical. Os conteúdos da plataforma não param de crescer: podcasts, rádios, novas bandas, playlists feitas por terceiros, playlists aleatórias feitas em bases diárias para meu gosto musical. Graças aos suecos, consegui acessar um acervo assombroso e me sinto totalmente satisfeito e grato por realizar um pagamento de um parco valor anual por toda essa comodidade.

O interessante nessa história toda é notar como a tecnologia mudou totalmente o conceito de escassez e a disputa financeira natural desta escassez. No passado, era preciso empregar altos valores para adquirir o tão sonhado LP. Hoje, com pouco trabalho, consigo baixar quantas músicas eu quiser, ou escutá-las, sem custo algum no spotify - que me cobrará apenas alguns minutos do meu tempo na forma de propagandas entre as músicas eleitas por mim. Entretanto, o que penso é que meu tempo empregado nessa tarefa de baixar músicas, escutar as propagandas do spotify, ou qualquer outras atividades é mais valioso (portanto, mais escasso) do que alguns reais pagos em bases anuais.

Até onde a ciência atual, minha imaginação e meus conhecimentos de ficção me permitem viajar, acho difícil resolver a questão da escassez do tempo humano. Essa questão, aliás, jamais será otimizada ou se tornará mais eficiente. Desde o momento em que dei meu primeiro respiro, estou sujeito a arrebatadora e transformadora força da morte - a maior agente de escassez do mundo.

Entretanto, me parece que os outros recursos, até mesmo meu tempo, ignorada a certeza da morte, tem se tornado menos escassos. Alguns, deixaram de ser escassos e tornaram-se abundantes. Tudo o que foi transformado em bytes, tornou-se infinitamente replicável. Hoje, já não se cobra mais pela escassez dos bytes, mas por serviços subjacentes, conveniências, ou otimizações, tais como o spotify, netflix computação em nuvem e outros tantos recursos que se multiplicam a cada dia.

Mesmo recursos, outrora de elevadíssima escassez, já não estão no mesmo nível de singularidade e infungibilidade. Você conseguiria imaginar, há vinte anos atrás, que com poucos cliques em um site, poderia alugar, por curta temporada, uma mansão na badalada Santa Mônica, por algumas centenas de dólares? Pense em casas que custam dezenas milhões de dólares, inacessíveis pela maior parte da população mundial, mas que, alcançadas pela organização tecnológica dos recursos, hoje estão, de certa maneira, menos escassas e mais acessíveis.

Naquele tempo da vitrola, além do próprio meio de escrita ser inacessível (máquinas de escrever), a sua replicação encontrava diversos limites. Gutenberg ganhou o título de um dos inventores mais importantes do milênio, justamente por conseguir reduzir o nível de escassez de impressões, mas ainda com grandes limitações e elevados custos (as editoras estão aí). Hoje, estou redigindo este texto de um editor de texto 100% gratuito e em nuvem, que poderia ser replicado ao infinito, nas diversas plataformas de conteúdo existentes.

 Mesmo o dinheiro já não é escasso. Saltamos da era metálica para a era contábil - onde o ouro não é mais o lastro de nenhuma moeda de cunhagem estatal. Desde Nixon, sequer há conversibilidade com o metal amarelo. Evoluímos para um movimento em que, mesmo o crédito, tem sua escassez desacreditada. O movimento de expansão de balanços de bancos centrais, mostrou que a troca econômica com pagamento diferido (o crédito), pode ser aumentado em limites impensáveis.

A lógica de alocação de recursos escassos foi arrebatada pela lógica de alocação eficiente, otimizável e simples dos recursos (já nem tão escassos), impactando em redução de custos de produção de diversos itens, passando pela produtividade por hora, chegando, finalmente, num mundo mais rico do que em qualquer outra época da história. Algumas pessoas, especialmente em redes sociais, dificultam a percepção sensorial deste fato - o mundo é um lugar melhor, pela maior parte dos indicadores possíveis de se aferir. Uma rápida visita ao site Our World in Data confirmará minha afirmação. Tudo isso permitido pela nova lógica da escassez.

Nesse mesmo cenário, algumas coisas ainda são interessantes, especialmente no que toca ao comportamento humano em relação à percepção da escassez. Sem qualquer compromisso científico, me parece claro que nós, seres humanos, nos sentimos especiais quando temos acessos a recursos escassos, quer seja uma escassez real - como a das trufas; quer seja uma escassez puramente comercial - como a da experiência de voar em primeira classe (em detrimento da classe executiva). Há algum mecanismo de recompensa acionado no momento em que consumimos e/ou usamos esse tipo de recurso, capaz de produzir sensações de prazer que afetam o paladar, nosso humor e outras percepções meramente sensoriais, portanto, não racionais.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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