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Imagem: SpaceX / Reprodução

"Qualquer um pode juntar R$ 500 mil e viajar para Marte": afinal, Elon Musk está certo?

Bilionários e a evolução tecnológica: analisando a polêmica fala do CEO da SpaceX (e da Tesla e futuro dono do Twitter)


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Samuel Barbi

Especialista em economia, entra ao ar às segundas-feiras com a coluna MundoZFundos, no RádioCast 98


Na semana passada foi divulgada entrevista do chefe de conferências do TED, Chris Anderson, com Elon Musk, fundador da Tesla e atualmente a pessoa mais rica do mundo de acordo com o ranking da Forbes. Sua fortuna é estimada em 219 bilhões de dólares, cerca de 1 trilhão de reais.

A rica conversa passou por pontos que parecem com os melhores filmes de ficção científica, como a integração entre tecnologia e saúde, a produção de carros autônomos, robôs domésticos, o desenvolvimento da inteligência artificial e, até mesmo, seu ambicioso projeto sobre a colonização de Marte. E foi exatamente uma fala do bilionário retirada do contexto que fez o conteúdo da entrevista viralizar:

"Se os custos da mudança para Marte são, para fim de argumentação, US$ 100 mil, então acho que qualquer um pode trabalhar e economizar e, eventualmente, ter o dinheiro e poder ir para Marte, se quiser".

A primeira reação a essa afirmação, naturalmente, é de pensar que Musk vive num conto de fadas e não compreende absolutamente nada da realidade na terra. Nossa inveja sobre seu patrimônio tende a deturpar a visão sobre o que ele e suas empresas estão objetivando realizar para a humanidade. Por isso, resolvi sair do óbvio e discutir um pouco mais sobre os outros pontos relevantes de sua entrevista e demonstrar o quanto estão interconectados entre eles e, até mesmo, com suas finanças pessoais. 

Sustentabilidade

O tema sustentabilidade inaugura a entrevista. Elon explica que, diferentemente da média das pessoas, acredita que temos um futuro brilhante pela frente, sobre o qual deveríamos ficar empolgados. Entende que os primeiros passos para evitar uma catástrofe climática já foram tomados, e que não somos mais tão complacentes com emissões de carbono, com empresas e governos trabalhando deliberadamente para corrigir esses problemas. 

Destaca que para atingir a desejada sustentabilidade precisamos de três fatores: energia sustentável (hídrica, solar, eólica e nuclear), transportes elétricos eficientes e melhores baterias. Atualmente, o grande limitador deste processo seriam as baterias, que não se desenvolvem de maneira exponencial quanto os outros dois itens. Entretanto, há diversas pesquisas para corrigir esses problemas e que poderão apresentar resultados mais concretos em um futuro próximo. 

Adiciona que devemos ser otimistas para o futuro, pois será bom e brilhante do ponto de vista energético. Isso significaria água limpa (despoluição de cursos de água e dessalinização) e queda de emissões de CO². A Tesla tem trabalhado fortemente nesses quesitos.

Carros e Robôs Autônomos

Não é novidade que a Tesla tem investido fortemente no desenvolvimento de carros autônomos. E o maior desafio nesse sentido é a solução de problemas relativos à inteligência artificial. Elon acredita que esses problemas serão solucionados ao longo de 2022 com o uso de tecnologias de redes neurais artificiais. É necessário que as máquinas aprendam bem para compreender nosso mundo de três dimensões, prever ambientes, movimentos, velocidades. Elas necessitam de construir uma memória de tempo e espaço, muito similar à humana. E quanto mais se testa e usa essa tecnologia, maior sua inteligência e menor é a probabilidade de acidentes. 

O que mais me chamou atenção foi a usabilidade dessa tecnologia para os Robôs Optimus. Lembre-se que o ambiente de trânsito é muito mais estressante que o do dia a dia. Se é possível resolver o problema da inteligência artificial em carros, quiçá para outras questões, como robôs humanóides assistentes. Imaginem suas miríades de funções! Poderíamos ter robôs amigos, faxineiros, “amantes”. Esses robôs poderiam fazer tudo que as pessoas não desejam fazer, especialmente trabalhos perigosos, chatos ou repetitivos. Elon acredita que esses assistentes seriam mais baratos que os carros autônomos, por volta de 25 mil dólares num futuro nem tão distante. Isso significaria serviços e produtos muito baratos para as pessoas, liberando tempo para trabalhos mais complexos e representando a construção de um mundo de maior abundância.

Saúde e Inteligência Artificial

Essa parte da entrevista me lembrou bastante do filme Transcendence (2014) em que Johnny Depp vive um cientista (Dr. Will Caster) que descobre como transferir sua consciência para a rede, o que lhe permitiria viver eternamente e assumir uma inteligência artificial independente. O dilema do filme permeia os potenciais dessa simbiose humano-máquina, bem como os seus riscos para a humanidade.

A Neuralink, uma das empresas de Elon, tem trabalhado nesse campo. Seus objetivos são compreender o cérebro humano, interagir com ele, e desenvolver uma engenharia que possa consertar seus eventuais defeitos e elevar suas potencialidades. O que isso significa? São ilimitadas alternativas: A cura de doenças neuronais ou mesmo motoras. Seria possível curar depressão, Parkinson, Alzheimer, desenvolver exoesqueletos que se comuniquem diretamente com o cérebro humano, corrigindo paralisias ou ausências de membros.     

Elon compreende que existe um risco de essa Inteligência Artificial se descolar do desejo coletivo humano e apresentar um risco às pessoas. E nesse sentido ele reforça a necessidade da regulação estatal. A tecnologia deve ser utilizada para o aprimoramento humano. 

1 milhão de habitantes em Marte até 2050!

Musk pretende colonizar Marte. E isso não é um projeto pessoal, mas de assegurar a perenidade da raça humana. Para criar a primeira cidade marciana e levar milhares de pessoas, seu plano é de construir uma frota de Starships, projeto da Space X (mais uma de suas empresas), nave de 120 metros de altura que pretende realizar viagens espaciais com carga e passageiros.

O projeto envolve fabricar 100 naves por ano durante um período de 10 anos. A meta é realizar três lançamentos por dia rumo à Marte para levar colonizadores, os recursos e equipamentos necessários para a construção. Cada nave poderia transportar 100 pessoas e 100 toneladas de carga. Estima-se que uma população de até 1 milhão poderia residir em Marte, pasmem, até 2050!

E foi nesse contexto que a polêmica fala foi proferida. Ele acredita que qualquer pessoa poderia viajar para o planeta vermelho, desde que quisesse. Não no sentido em que qualquer um poderia despender 100 mil dólares para turistar pelo planeta vermelho, mas que governos e instituições privadas poderiam querer, inclusive, financiar pessoas para realizar essa importante expedição. Obviamente, não seriam todas as pessoas que topariam ser exploradoras do sistema solar, uma viagem cheia de riscos e incertezas.

E parte desse ousado projeto é que as Starships podem ir e voltar de Marte com relativo baixo custo. Seria tecnicamente viável desenvolver o metano, o combustível da nave, a partir de elementos disponíveis no planeta, reabastecer as naves e retornar com elas para a terra. Proporcionalmente, o custo desses voos seria até menor que os de aviões comerciais, adiciona o bilionário.

Conclusão

Até que ponto Musk é um visionário ou um maníaco por ficção científica? Veremos ao longo dos próximos anos com os desenvolvimentos de seus negócios. Entretanto, é triste ver como as pessoas julgam uma fala de forma isolada, no contexto de uma entrevista extremamente rica e que revela um futuro muito interessante para a humanidade.

No contexto, a polêmica fala de Musk não é insana. Há um paralelo com as colonizações ocorridas em todo o mundo. As pessoas, em busca de uma vida melhor, buscam patrocínios governamentais, privados, vendem posses ou se endividam em busca de um sonho. Esse sonho pode ser realizado para alguns ou se tornar um grande pesadelo para outros.

Minha conclusão sobre essa épica entrevista é que as empresas e empreendimentos de Musk apresentam enormes sinergias entre si para construir um futuro muito interessante. Imagine naves populadas por pessoas e robôs autônomos, que juntos construiriam uma nova sociedade em outro planeta? Bilionários como Musk podem conduzir nossa sociedade para caminhos alternativos, com um forte impulso para a evolução tecnológica. 

Por fim, gostaria de comentar sobre a mentalidade do empresário que está no topo da lista da Forbes. Ele diz que não se importa muito com suas altas variações de patrimônio. Sua riqueza não é direcionada para consumo pessoal, mas para um senso de propósito. Para ele suas companhias são filantrópicas, buscando: energia barata, a perpetuação da espécie, a cura de doenças e outras soluções para a melhoria da qualidade da vida humana. Por fim, termina a entrevista com uma fala impressionante: “Se você deseja que o futuro seja bom, você deve construí-lo.”


* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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