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Imagem: Netflix / Reprodução

Round 6: Lições para sua vida financeira

O que se pode aprender com o sucesso sul-coreano da Netflix


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Samuel Barbi

Especialista em economia, entra ao ar às segundas-feiras com a coluna MundoZFundos, no RádioCast 98


Round 6 chegou ao topo das séries Netflix em outubro e está carregada de importantes lições para nossa vida financeira. O seriado sul coreano conta a história de pessoas superendividadas que topam disputar jogos para levar um prêmio em dinheiro.

Os jogadores eram selecionados após firmarem um contrato abrindo mão de sua integridade física, caso não fossem capazes de pagar suas dívidas. Também deveriam assinar um documento para iniciar o jogo, no qual constavam três cláusulas:

1)  O jogador não pode abandonar o jogo;

2)  Jogador que se negue a jogar será eliminado;

3)  Se a maioria das pessoas quiserem que o jogo termina, ele finaliza.

Os participantes não sabiam quais jogos iriam jogar, o valor do prêmio (aproximadamente R$200 milhões de reais ou 45,6 bilhões de wons) e, o mais importante, em caso de derrota, pagariam com suas próprias vidas.

Lição 1: O Dilema da Desigualdade

O seriado explora a desigualdade social, enquanto bilionários se divertem apostando, há uma grande população passando dificuldades financeiras. A desigualdade é medida pelo índice de Gini, que aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. Varia de zero (total igualdade, todos têm a mesma renda) a um (uma só pessoa detém toda a riqueza). Curioso é que o índice da Coréia do Sul está entre os menores do mundo (por volta de 0,31-32 ao longo das últimas décadas), com resultados melhores do que alguns países nórdicos e até mesmo que dos EUA (média de 0,48).

Apesar dos relevantes resultados, o tema da desigualdade tem sido cada vez mais explorado pelas artes sul coreanas. E faz muito sentido. O cérebro humano funciona com base na comparação. O país viveu um grande crescimento econômico desde a década de 1970, enriquecendo uns mais que outros, portanto, destacando contrastes sociais. Adicionalmente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, demonstra evolução significativa na qualidade de vida da população, em termos de melhor expectativa de vida, acesso à educação e crescimento de renda (em paridade de poder de compra). Devemos sempre nos perguntar, a desigualdade está contribuindo com a pobreza, ou a qualidade de vida tem melhorado para todos a despeito do aumento da desigualdade?

Lembre-se que igualdade de renda não significa justiça ou felicidade. A chave para entender essa lição está na questão migratória. A situação na Coréia do Sul não é fácil, mas, mesmo com todos os riscos envolvidos, há muita gente disposta a arriscar a vida para fugir da Coréia do Norte e tentar uma vida melhor do lado capitalista, mais desigual. Ironia? 

https://ourworldindata.org/human-development-index

Lição 2: Os perigos do endividamento

Dívidas são como bolas de neve. Deve-se evitá-las ao máximo. Elas fazem o poder dos juros compostos trabalhar contra você. Na Coréia do Sul as pessoas estão ficando cada vez mais endividadas e, uma das fontes desse problema são os empréstimos para financiar a universidade dos mais jovens.

No país, 60% dos estudantes de graduação devem no mínimo 10 mil dólares em empréstimos. A depender o tipo de empréstimo, os juros podem ser de até 500% ao ano. O desemprego atinge cerca de 10% entre os jovens, os quais detém altos limites de cartão de crédito e até descontos em impostos pelo uso dessa ferramenta. Mais consumo que renda, resultando que em 2021 o país tenha a maior proporção dívida das famílias/PIB da Ásia, 104,9%.

A lição de Round 6 para o endividamento é clara: ele coloca sua vida em risco. A vergonha da dívida é uma das principais razões para tentativas de suicídio no país. Muitas pessoas entram em um ciclo de superendividamento pelo excesso de consumo ou pela má avaliação de riscos. A educação financeira é a principal arma contra esse relevante problema.

Lição 3: Confiar desconfiando

Durante os jogos conseguimos perceber uma dualidade: cooperação e competição. Há jogos em que a cooperação é essencial para vencer, enquanto em outros a competição é direta e, as pessoas revelam suas faces mais ocultas. A realidade é que não há pessoas totalmente boas ou ruins. As pessoas reagem a condições e incentivos, podendo a ética se perder, a depender das regras que estão sobre a mesa. Nosso papel é entender em quem e até quando podemos confiar, sempre mantendo aquele pé atrás para se preservar.

Na vida financeira também é importante agir assim, confiar desconfiando: Jamais perca dinheiro e aprenda a identificar golpes financeiros. Ganhos irreais, clubes privados e ostentação são sinais daqueles que querem te fisgar para tirar seu suado dinheiro. Veja que essas são características do recrutador de Round 6: dinheiro fácil (para jogar um jogo), cartão enigmático (apenas convidados podem participar), roupa e aparência impecáveis (sinal de sucesso e ostentação).

Lição 4: Risco e Retorno (Spoiler Alert!)

Ao entrarem no jogo, os personagens não tinham plenos conhecimentos do que enfrentariam, não sabiam seus riscos e retornos. O autor, no entanto, foi bastante perspicaz em criar um ambiente democrático com sua cláusula terceira, acionada após a brutal matança do Batatinha 1,2,3: Se a maioria das pessoas quiserem que o jogo termina, ele finaliza.

De 201 jogadores sobreviventes, 101 votam pelo encerramento dos jogos e 100 pela continuidade. Todos retornam às suas endividadas vidas no continente. Pouco tempo depois, percebendo as dificuldades que enfrentavam, 187 jogadores quiseram retornar agora completamente conhecedores de seus riscos e retornos. Um dos soldados do seriado faz a conta e nos diz, “a taxa de reentrada é de 93%”. O risco era a vida, o retorno, cerca de 200 milhões de reais.

Maiores riscos, maiores retornos esperados. O segredo do jogo financeiro é continuar vivo, evitar a ruína e a falência com os maiores retornos possíveis. Portanto, riscos não devem ser evitados, mas manejados. Como diria Max Gunther, “O risco é o molho forte e picante da vida, quando se habitua com seu gosto, não se fica mais sem ele.”

Lição 5: O que há de comum entre o pobre e o bilionário? (Spoiler Alert!)

Uma das falas finais da série me chamou muita atenção:

- Você sabe o que alguém sem dinheiro tem em comum com alguém muito rico? Viver não é divertido para eles. Se você tem muito dinheiro, não importa o que você compre, coma ou beba, tudo fica chato no final.

Estar numa situação de pobreza não é simples, fácil ou agradável. Entretanto, o monje Thich Nhat Hanh comenta que “Se você souber fazer um bom uso da lama, você poderá cultivar lindas flores de lótus. Se souber fazer um bom uso do sofrimento, você pode produzir felicidade.

Quando assisto um seriado meu foco não é o final, mas o processo. É ele que me deixa feliz. Caso contrário, já assistiria diretamente o último episódio. Muitas vezes estamos tão focados em nossos objetivos que nos esquecemos da jornada, e tudo que sobra é o sofrimento. Ser rico pode até ser seu objetivo, mas não há alegria nisso, a felicidade está no caminho, em desfrutar cada passo do processo, tenha certeza isso é mais saboroso que o final em si mesmo.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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