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Imagem: Pixabay

Semana de quatro dias: Um sonho possível?

Pontos positivos e de atenção sobre essa nova moda mundial


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Samuel Barbi

Especialista em economia, entra ao ar às segundas-feiras com a coluna MundoZFundos, no RádioCast 98


Em 1920, o fundador da Ford, Henry Ford, decidiu implantar um regime composto de cinco dias úteis com oito horas de trabalho em cada um deles, seguido de dois dias de folga. Há mais de cem anos temos seguido este modelo de comportamento como padrão, entretanto, essa lógica tem sido flexibilizada em alguns países e empresas, levantando o debate internacional sobre o assunto.

Distúrbios emocionais como exaustão extrema, estresse e esgotamento físico promovidas por situações de trabalho desgastante e competitivas estão por trás de inúmeros casos de síndrome de Burnout (Síndrome do Esgotamento Profissional). Adicionalmente, as pessoas têm demandado melhores condições de vida, em especial, para manter um melhor equilíbrio entre a vida profissional e social. 


oda transformação começa com um “e se”: E se a semana fosse de quatro dias? As condições de trabalho seriam aprimoradas para corrigir os problemas contemporâneos? Conforme dados reportados pela CNN, 61% dos trabalhadores brasileiros consideram mudar de emprego em caso de problemas de saúde mental e 74% acreditam que seriam mais produtivos em uma semana de quatro dias. O Estadão, por sua vez, indica que 79% concordam em aumentar as horas diárias de trabalho para ter uma semana mais curta, e a maioria estaria disposta a apoiar a empresa na implementação do novo modelo (84%). Os respondentes creem que a redução da carga também melhoraria a saúde mental (85%) e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal (86%).

Quem já testou?

O conceito da semana de quatro dias surgiu de experiências em empresas de tecnologia em países desenvolvidos como Bélgica, EUA, Islândia, Nova Zelândia, Reino Unido e Suécia. As firmas decidiram adotar regimes mais flexíveis ao perceber seus funcionários solicitando desligamentos, alegando majoritariamente o esgotamento profissional pelas condições de trabalho. Sendo assim, a nova medida tentava evitar a “fuga de cérebros”.

Outro exemplo são os Emirados Árabes Unidos que foram o primeiro país do mundo a adotarem de forma integral a semana de 4 dias úteis. A jornada de 36 horas semanais (9 horas diárias) entrou em vigor em janeiro de 2022 para todos os órgãos públicos, entretanto, para as empresas privadas a iniciativa se manteve facultativa.

No Brasil, algumas companhias de tecnologia também aderiram à nova jornada, dentre elas: AAA Inovação, Crawly, Eva, Gerencianet, NovaHaus e Winnin.

Pontos Positivos

As companhias que implementaram a nova jornada veem melhorias de eficiência, bem-estar dos trabalhadores, maior retenção de talentos e até mesmo aumento de suas receitas. Além disso, quando o mercado está quente, em um cenário de muitas vagas e poucos profissionais, oferecer um dia a mais de descanso é um ponto positivo para as empresas disputarem mão de obra com firmas que oferecem salários maiores.


Pontos de Atenção

Algumas empresas em período de testes têm reportado perda nas entregas, mesmo que parcialmente compensadas por ganhos de eficiência. Na NovaHaus, as pessoas diminuíram a jornada de trabalho em 20%, mas deixaram de produzir somente 7%. O presidente da empresa, Leandro Pires, completa que “essa porcentagem foi compensada com a queda da rotatividade e com um aumento de receita.

Há um projeto de lei em andamento na Califórnia (EUA) que propõe uma jornada semanal de 32 horas - em substituição às atuais 40 horas - para empresas com mais de 500 funcionários e, pasmem, sem corte de salário. Regulamentações efetuadas nesse sentido, sem uma ampla avaliação de impactos, poderiam conduzir a uma desestruturação das cadeias produtivas e aceleração ainda maior da inflação.

É importante lembrar que o desemprego no Brasil, na maior parte dos setores, destoa dos pedidos de demissões em países desenvolvidos. A medida também teria muita dificuldade para ser implementada em setores comerciais e industriais, os quais carregam características muito distintas do ambiente de tecnologia.

Concluindo

A pandemia acelerou a prática do teletrabalho. Nesse ambiente de menor integração presencial, ampliou-se a competição por profissionais de alta capacitação que agora podem viver espalhados por todo o globo. Para eles, a semana de quatro dias já é um sonho possível. Com seu enfoque no setor de tecnologia, a decisão de adotar uma semana mais curta diz muito mais sobre ampliar a produtividade do que reduzir um dia de trabalho. Se é possível produzir mais com menos tempo e ter uma melhor qualidade de vida, este caminho deve ser tomado.

A legislação brasileira estabelece que a jornada de trabalho é de até 40 horas por semana e, por enquanto, não existe proposta para alteração legal. Cabe destacar que a semana de quatro dias não deve fazer sentido para todo tipo de negócio. Sendo assim, os legisladores devem ter bastante cuidado ao propor regulamentações nesse tema, com estudos detalhados e amplo debate com a sociedade. A medida só é sustentável desde que se possa equivaler as perdas de produção do dia não trabalhado com correspondentes ganhos de eficiência, saúde e qualidade de vida.


* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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