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Imagem: Sofia Vinogradova

Em entrevista à Rede 98, russos explicam motivos de serem contra ou a favor da guerra

O argumento que justifica a invasão passa pelo nazismo, mas será que há fundamento? Protestos na Rússia pedem paz na região


Por Marcello Oliveira

Após a invasão da Rússia na Ucrânia, vários protestos contra a guerra foram registrados em cidades russas. As pessoas foram às ruas em um movimento que pede o fim da invasão ao país vizinho e muitos seguravam cartazes que pediam “não à guerra” e também a paz entre as nações.

Segundo o observatório OVD-Info, que monitora os protestos e manifestações, 850 pessoas foram presas em 44 cidades da Rússia.

Em Moscou, a maior cidade do país, a polícia de choque tentou impedir um protesto em uma praça, usando alto falantes, militares alertaram a população que a manifestação era proibida. As autoridades russas alertaram nesta quinta-feira (24) os cidadãos que participarem de protestos anti-guerra pode levar a processos e acusações criminais.

A Rede 98 conversou com três russos que estão em Moscou e São Petersburgo e acompanham de perto o movimento. Na entrevista, eles passaram qual é o sentimento neste momento dos russos em relação à guerra.

Nikita

Morador de Moscou, Nikita é um policial membro das forças de segurança que atuam na Praça Vermelha, onde está o Kremlin, sede do Governo russo. Disse que, por causa do cargo que ele exerce, não poderia autorizar a divulgação do sobrenome e nem de fotos dele. Para Nikita, o presidente Vladmir Putin está correto em livrar o país dos Nazistas, deixando claro que acredita que esse seja mesmo o real motivo da invasão da Rússia na Ucrânia, seguindo o mesmo discurso de Putin para justificar a ofensiva. “A população russa está em risco, os russos têm muitos parentes na Ucrânia, a Rússia não mata civis, eles destroem os nacionalistas”, disse o policial. Questionado sobre as consequências da guerra, Nikita não acredita que muita coisa irá mudar, mas que uma força mais enérgica é necessário. “Nosso país foi oprimido por sanções por muito tempo e não importa o que nosso país faça , ainda haverá sanções, estamos cansados de sermos intimidados”.

Ele classificou as manifestações nas cidades russas como movimento minoritário. “Como sempre, a minoria está tentando controlar a maioria e ir a todos os tipos de comícios, mas Deus e Vladimir Vladimirovich (Putin) estão conosco”.

Sofia Vinogradova

A jovem aeromoça Sofia Vinogradova, de 27 anos, relatou grandiosos protestos em Moscou, mas destacou que todos pedem a paz. “Estou com medo, estão todos com medo, nem os russos e nem os ucranianos querem guerra, eu não entendo de política mas eu simplesmente não quero que as pessoas sofram”, comentou a jovem.

Azad Mirzaliev


O estudante Azad Mirzaliev, de 25 anos, morador de São Petersburgo, lamentou a atual situação. O rapaz iniciou a conversa com um desabafo: “Honestamente? Eu me sinto mal”. Até mesmo para quem está ao lado da zona de confronto, falar em guerra pode parecer inacreditável. “Eu não posso acreditar que o nosso governo e Putin iniciaram essa guerra e não há volta pois neste momento, todos os países do mundo nos odeiam por causa do Putin e isso é tão ruim e terrível, eu odeio o nosso Governo”, completou o jovem.

Segundo uma pesqueisa feita pela rede de TV americana CNN, pelo menos metade dos russos são favoráveis ao uso de força militar para manter a Ucrânia fora da Otan. A mesma pesquisa revelou que 25% acham errado o uso de força militar e outros 25% não sabem opinar.

Combate ao nazismo?

O policial de Moscou que conversou com nossa reportagem e que é favorável à invasão, disse que o motivo que o faz aprovar a guerra é a tentativa de eliminar o risco do nazismo, mas será que esse risco realmente existe?

O Kremlin afirmou que o objetivo da operação é desmilitarizar a Ucrânia. Vladimir Putin costuma relacionar os ucranianos de forma indistinta ao nazismo e ao fascismo. Porém, a Rússia usa um fato inegável: o nacionalismo que impulsionou os protestos de 2014 depôs um governo pró-Moscou e deu início à aproximação com o ocidente, é de fato ideologicamente de extrema-direita. A principal facção que se formou se chama Movimento Azov, organização paramilitar integrada por células neonazistas e acusadas de crime de guerra nos confrontos na região separatista de Donbas, onde mais de 14 mil pessoas já morreram em conflitos internos. Os crimes mais relatados naquela área pelo Azov é a tortura, roubos, estupros, limpeza étnica e perseguição a judeus e homossexuais.

Mas o fundador do movimento Azov, Andriy Biletski, nega que o grupo tenha atributos neonazistas, mesmo que na internet não seja raro ver integrantes da facção exibirem suásticas e bandeiras do sol negro, além de se cumprimentarem com a saudação romana adotada na Alemanha durante o III Reich. “Somos nacionalistas e visamos defender os interesses da Ucrânia”, afirmou ele em várias entrevistas.

É importante destacar que a Ucrânia não se resume a região separatista. O discurso de que o país é um país nazista cai bem para conquistar o apoio de movimentos de esquerda mundo afora. A Rússia atual, porém, nada tem a ver com os ideais do socialismo da antiga União Soviética. 

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