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Opinião

(Juntos Pela Educação MG / Divulgação)

Difícil abordar esse tema sem perder todos os cuidados em ferir susceptibilidades. A Educação em nossa capital está no pátio de recreio há mais de 400 dias e ninguém se responsabiliza por chamar nossas crianças e jovens para dentro das salas de aula. 

O tempo da virtualização do ensino já passou dos limites para pais e alunos, mas alguns atores da educação e a Prefeitura de BH parecem viver em mundos diferentes. Tão diferentes que, somente depois de 400 dias, os gestores públicos iniciam a discussão da expansão e melhoria do sinal da internet em comunidades carentes como forma de bancar sua lentidão em oferecer propostas para a volta às aulas. E aqui cabe uma reflexão: equipar as comunidades carentes com sinal de internet é ação de inclusão digital que deve ser feita em qualquer tempo e que, aliás, não precisa de episódios pandêmicos para ser realizada. 

A resistência político-partidária do Sind-Rede BH, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação da Rede Pública Municipal de Belo Horizonte, chega a causar espanto — em dias mais irracionais eu diria náuseas. Só para contextualizar o Sind-Rede BH atuou e atua com muita liberdade dentro da Secretaria Municipal de Educação na elaboração dos atos de resistência à volta às aulas. Nessa atuação influenciou as decisões da Secretaria e de outras áreas na gestão da crise da pandemia para o retorno das atividades escolares. 

Como exemplo, a admissão por parte da Secretaria de Saúde da adoção de dados inverídicos, palavra delicada para mentira, que justificaram o não retorno. Por último, mas não menos importante, a adesão velada do sindicato, braço de operação de um partido político, o PSTU, à campanha de reeleição de Alexandre Kalil.

Fatos que  incomodam ou provocam reflexões. Mensuraram esses atores do ensino público da capital, os efeitos desastrosos dessa demora? Quem sai perdendo com essa lentidão? Alguém lucrou? Vamos às respostas. 

Não, não mediram sob a lupa de conhecimento técnico suas ações. Ignoraram inúmeros estudos e conclusões feitas ao redor do mundo, que deixavam às claras o pouco risco do retorno às aulas. Decisões de países em autorizar tal retorno foram sucedidas de acerto, mas por aqui, nas terras do Curral D’El Rey, não tiveram ressonância

Os maiores perdedores são alunos de menor poder aquisitivo que, com a ausência das aulas, criaram em seus conhecimentos um lapso quase irrecuperável no saber. Ou acham esses iluminados que numa casa onde se tem um smartphone compartilhado — quando se tem — duas crianças acompanharão aulas virtuais? Os alunos filhos de classes de maior poder aquisitivo tiveram ou a assistência de seus pais, que puderam em alguns casos acompanhar o estudo dos filhos. Ou de professores particulares, tutores pagos, e essa diferença será ressaltada em breve na continuidade dos estudos desses alunos.

Claro que  lucraram, e da maneira mais sórdida possível. Potencializaram um discurso rançoso ultrapassado, carregado de rancores políticos para seus correligionários. Alguns até a recondução aos seus cargos...     

Até aqui não tocamos em temas mais sensíveis como o fraco desempenho dos alunos da rede pública municipal no IDEB, registrando queda em suas avaliações. “Ora”, dirão, “esses números são pré pandemia”. Fico preocupado com os números que virão. Aguardemos.

Pensei em abordar as questões emocionais de crianças e adolescentes que, por serem da espécie humana, são seres gregários, precisam de socialização, impossível aos mais de 400 dias sem aulas, mas ponderei. Não o farei para que minha estabilidade emocional não se acentue e para que a raiva que me provoca esse tema não embace a análise e não contamine minhas palavras.

Volta às aulas já. Para que eu possa olhar para André, meu pequeno de cinco anos, com a esperança de que esses tempos não causem danos maiores a ele e a seus amiguinhos.

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