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Imagem: Reprodução / Instagram

O estranho caso da faculdade que não aceita bebês

Mãe de um bebê de 11 meses barrada em campus da Faminas levanta questionamentos sobre sororidade, empatia e maternidade; instituição afirma que caso é isolado


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Camila Dias

Advogada e bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, especialista em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública


“Inovação para inaugurar o futuro”. Este é o slogan do spot comercial da faculdade Faminas, que, no último dia 08 de fevereiro, teria impedido a estudante de direito Melissa Faria de entrar com a filha de 11 meses no campus.

No momento em que li o relato da mulher, em sua rede social, passou um filme na cabeça. Quando engravidei do meu segundo filho, eu acabara de me matricular no curso de Direito. Após o nascimento dele, vivi algo parecido. E, por mais que as mães se planejem para ter filhos e não parar a vida, imprevistos acontecem. Muitas mulheres passam por isso.

A estudante de direito está no 5º período e escreveu: “É com um nó na garganta e o sentimento de impotência que eu volto para casa, na chuva, com minha filha de 11 meses que não pôde me acompanhar na sala de aula da faculdade. Quando entrei no prédio, uma moça que estava passando me ajudou a subir o carrinho de bebê pelas escadas, e ao passar pela catraca os seguranças me barraram, alegando que eu não poderia entrar com a criança. Em nenhum momento foram grosseiros comigo, porém, precisaram chamar a coordenadora. Ela disse que a faculdade não é lugar para crianças, pois é uma instituição de ensino superior (...)” e continuou.

A jovem estudante não tinha com quem deixar a filha naquele dia. Além disso, a criança amamenta. Parece que nada disso foi levado em consideração por parte da coordenadora que, pasmem, é uma mulher. Onde estão a empatia e a sororidade?

Olhei um a um todos os comentários e, tanto homens quanto mulheres, demonstraram indignação quanto à postura da faculdade. E não era para menos. Não há a necessidade de ter conhecimento jurídico para saber que  o Estatuto da Criança e do Adolescente garante o aleitamento materno até os 2 anos e proíbe que a criança seja objeto de negligência dos pais. A Constituição da República também dá ampla proteção à maternidade. Sem contar a educação - um dos principais direitos garantidos por nossa Constituição.

Continuando parte do relato da estudante: (...) “Se exclui o bebê, exclui a mãe que está com ele. Estou trabalhando para a sociedade ao criar uma pessoa. Valorizar as mães é garantir direitos. O acesso à educação deveria ser central. Dizem que a educação combate a desigualdade, mas estão praticando a desigualdade. Doeu ouvir da coordenadora que como não tenho com quem deixar, e por estudar a noite e não ter creche disponível, terei que "repensar". Repensar o quê? Com outras palavras, ESQUECE! Se você é mãe e amamenta e não tem uma rede de apoio, ESQUEÇA de estudar, aqui não te cabe.O Brasil assinou tratados internacionais como a Declaração de Pequim, a Convenção do Belém do Pará e a Cedaw(Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher). Os três abordam a proteção à maternidade, os direitos das mulheres em relação à sua fertilidade e à educação.Os tratados têm força de lei, devem ser respeitados. A gente quer continuar os estudos, ter uma carreira, mas às vezes não dá para achar espaço em creche pública ou não dá para pagar escola (na região está na faixa de 600,00 a 900,00). Algumas meninas desistem, outras, como eu, passam constrangimento quando tentam entrar com a criança. Se as instituições disponibilizassem espaço para as crianças, seria um incentivo para a educação. Pois o aleitamento materno é fundamental, todas as faculdades deveriam permitir. Se a mãe tivesse alguém responsável pelo filho dela ali, só por quatro horas, já ajudaria muito. O número de mulheres no âmbito acadêmico aumentaria!!!! Só um desabafo!!!!”

E que desabafo. Desabafo que representa a todas nós, mulheres e mães que se desdobram para garantir um futuro melhor para si, mas principalmente para seus filhos. 

Sim, até sei que vão aparecer aqueles que apontarão o dedo: “não quer passar aperto? Se programe, não tenha filhos antes da graduação”. Mas não se trata de programar ou não. Filhos jamais são empecilho para quem tem foco. Muito pelo contrário. São motivação!

O que deveria acontecer é uma adequação das instituições de ensino para que isso não volte a acontecer. É inadmissível quando uma instituição que ministra curso de Direito não cumpre e não faz serem cumpridos os direitos fundamentais e humanos.

A resposta da faculdade nos traz esperança. Em nota, a instituição de ensino informou que o ocorrido com a estudante não faz parte das diretrizes. Segundo a faculdade, não existe uma normativa interna que impeça as mães de levarem seus filhos. Foi informado, ainda, que todas as medidas necessárias estão sendo tomadas para que este tipo de situação não se repita na instituição. A instituição ainda pediu desculpas à estudante e assumiu o compromisso de não permitir, em hipótese alguma, que incidentes como este se repitam na Faculdade.

Que assim seja!

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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