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Opinião

Imagem: Naseer Kawoshger / Reprodução

O grito das afegãs é de todas nós e esperamos que o mundo ouça

No Afeganistão, as mulheres das vitrines já não sorriem mais. Que haja luta e que tenham voz

Notícias

Nely Aquino

Vereadora pelo Podemos, presidente da Câmara Municipal de BH em seu 2º mandato. Fundadora do Projeto Rumo Certo.


“O presidente do Afeganistão fugiu”; “As tropas americanas e a Otan foram embora"; “O palácio presidencial foi tomado pelos combatentes do grupo extremista Talibã”; “As mulheres e minorias afegãs serão tolhidas de vários direitos”. E assim, o mundo vem assistindo, com olhares atentos e receosos, desde o último domingo (15) aos noticiários sobre a retomada do controle do Talibã no Afeganistão.

As imagens de uma multidão de afegãos se agarrando à fuselagem de aeronaves no aeroporto de Cabul, na manhã de segunda-feira, circularam rapidamente pelas redes sociais provocando extrema comoção e, principalmente, medo. Tanto a multidão, quanto um enorme engarrafamento no entorno do aeroporto, foram captados até pelo satélite da Maxar. A ONU já teme grave crise migratória.

A historicidade apelidou o Afeganistão de “cemitério de impérios”:  Império Britânico (1919), o próprio Império Soviético (1989) e, agora, os Estados Unidos não conseguiram construir um estado unificado na região. Especialistas em relações internacionais já preveem que os resultados da retomada do poder pelo Talibã, 20 anos após de ter sido destituído por uma coalizão militar internacional culminada pelo ataque terrorista às Torres Gêmeas nos EUA, serão traumáticos, tanto para a economia, quanto no social.

O país vive 40 anos de guerra ininterrupta. De 1996 a 2001, o Talibã comandou o Afeganistão com gravíssimas violações aos direitos humanos, principalmente contra mulheres e minorias afegãs, alvos das tradições e leituras fundamentalistas do Islã. É esse histórico que serve de alerta. Além de não poderem estudar, as mulheres eram obrigadas a ficarem confinadas em casa e só poderiam sair ou viajar com a presença masculina de alguém da família. O acesso à saúde era limitado e, com isso, a expectativa de vida delas era de 57 anos. Acusações de adultério poderiam resultar na pena capital por apedrejamento. Mas, nos últimos 20 anos, ainda que a sociedade afegã tenha mantido alguns traços de conservadorismo em relação a essa pauta, as meninas entraram nas escolas, e há mulheres no Parlamento, no governo e em empresas.

Embora o Talibã já tenha se pronunciado que a transição será pacífica e que o grupo insurgente vai proteger os direitos de mulheres, inclusive com a participação delas no governo, assim como a liberdade para os profissionais de mídia e diplomata, o futuro das mulheres afegãs ainda é incerto e tem preocupado toda a comunidade internacional. A agência Associated Press afirma que alguns militantes já tomaram casas, botaram fogo em uma escola e regras como casamento forçado e o uso da burca já estão em prática. Denúncias de abuso sexual cresceram e vídeos de vitrines com fotos de mulheres sendo apagadas também circularam na mídia internacional.

É importante entendermos todo o contexto desse alerta no Afeganistão, mas também estarmos atentos de que a perseguição sexista não é exclusividade de grupos radicais islâmicos. Há uma coisa que é ao mesmo tempo dolorosa e intrigante em todo o mundo, inclusive no Brasil: é sempre a mulher o alvo principal.

No Afeganistão, as mulheres das vitrines já não sorriem mais. Que haja luta e que tenham voz. O grito das afegãs é de todas nós e esperamos que o mundo ouça!

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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