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Imagem: Reprodução / Redes Sociais

Passar dos limites legais, em busca do reajuste salarial, não é uma boa estratégia

Ataques contra profissionais da imprensa e atos de vandalismo esvaziam o discurso da recomposição salarial defendido pela categoria


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Camila Dias

Advogada e bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, especialista em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública


As Forças de Segurança são essenciais à manutenção da paz, à garantia dos direitos e ao cumprimento dos deveres previstos na legislação pátria. E nunca foram valorizadas à altura do serviço que prestam, afinal, colocar a própria vida em risco, para defender a vida de outras pessoas, desconhecidas inclusive, não é tarefa comum, muito menos, fácil.

Desde o ano passado, estamos acompanhando os movimentos, até então, pacíficos para que o Governo cumpra com o acordo firmado em 2019, quando foi prometido o reajuste salarial para os policiais militares, civis, penais e militares do Corpo de Bombeiros. 37% em três parcelas. A primeira, de 13%, foi cumprida. As outras duas, de 12% cada, ficaram na ilusão.

Pelo menos três manifestações de grande vulto aconteceram até agora no centro de Belo Horizonte e na Cidade Administrativa. Os policiais vieram em caravanas, de várias partes do Estado, para lutar pelos direitos. Até aí, tudo bem.

O desespero chega quando percebemos que aqueles que deveriam fazer cumprir a lei passam para o lado obscuro da força. Na manhã de hoje, uma jornalista foi socorrida ao hospital depois que uma bomba foi arremessada em direção a ela. A profissional sofreu um trauma grave no ouvido e passará por outros exames para avaliar se houve perda auditiva e qual a extensão do ferimento. Um outro repórter foi hostilizado e também foi alvo de bombas.

Um policial civil foi flagrado pichando o asfalto que compõe a Praça da Liberdade. No final do mês de fevereiro, um áudio atribuído à representante classista da Polícia Penal circulou pelo whatsapp. “Vamos focar agora, o medo agora não existe, o sindicato tem CNPJ e sede própria que vale milhões de reais. Se multar a gente deixa penhorar (...). Gente, vocês estão com dor de coluna, gripados, com Covid. Me fala onde está o crime? Onde há crime no direcionamento de se trabalhar na legalidade? Temos vários advogados para fazer as defesas. Deixa com o jurídico”.

Testemunhas disseram que os policiais estão armados e a todo momento arremessam bombas, desobedecendo ordem judicial. Todas as ações estão sendo acompanhadas pelo Centro de Apoio Operacional Criminal (Caocrim) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e, de acordo com o Caocrim, o teor desse áudio, somado às mensagens divulgadas em redes sociais, caracteriza crime de falsidade ideológica provocada pela apresentação de atestados falsos - fingir que está doente para não ir trabalhar e apresentar documento falso.

Alguém tem dúvida que houve crime de lesão corporal contra a repórter que pode ter sofrido perda auditiva? E alguém questiona o crime de dano a um bem público, tombado, patrimônio cultural? Alguém acha que os jornalistas hostilizados não se sentiram ameaçados, estando presente, então o crime de ameaça? Alguém duvida que houve desobediência?

Ninguém discute que o reajuste é justo e necessário! Que as perdas inflacionárias estão acabando com a qualidade de vida dos policiais e servidores públicos em geral. Mas é preciso estratégia e responsabilidade. Usar desse direito para a prática de crimes, acaba com os pilares da democracia, tira a legitimidade do movimento, traz insegurança e deixa a bandidagem com a certeza que vivemos numa terra sem lei. Digo certeza, porque essa sensação, grande parte de nós já tem. Os policiais sérios não podem permitir que uma meia dúzia de baderneiros tire a legitimidade de algo tão urgente.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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