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Opinião

Imagem: Corpo de Bombeiros / Divulgação

Tragédia em Capitólio: sensacionalismo sem limites

Imagens fortes que inundaram veículos de comunicação, no fim de semana, levantam a questão: será que a ética deixou de ser ensinada no jornalismo das faculdades?

Notícias

Camila Dias

Advogada e bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, especialista em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública


Dez pessoas mortas de forma brutal em Capitólio, importante região turística de Minas Gerais. Uma rocha simplesmente despencou arremessando pessoas. Até aqui, nenhuma novidade além do que foi divulgado durante todo o fim de semana. As notícias inundaram os veículos de comunicação. Talvez não tenhamos nos acostumado, ainda, com a falta de limites de alguns veículos de comunicação. E apesar de não estarmos acostumados, infelizmente, não há surpresa ao observarmos a forma com a qual lidam com uma informação tão sensível.

A rocha despencou do cânion. O momento foi registrado por câmeras de celulares e, minutos depois da tragédia, aquelas imagens tomaram conta das redes sociais particulares e das redes sociais de veículos de comunicação, ou seja, empresas que fazem (ou pelo menos deveriam fazer) Jornalismo.

Ao navegar pelos sites de notícias no último sábado (8), me deparei com um vídeo publicado por um jornal de grande circulação em Minas Gerais. E, no primeiro momento, não acreditei naquela riqueza (ironia) de detalhes. 

Qual a necessidade de se publicar o vídeo, em câmera lenta, mostrando detalhadamente as pessoas sendo arremessadas? Detalhando minuciosamente o momento e como elas morriam?

Será que a disciplina de ética no Jornalismo deixou de ser ensinada nas faculdades?

Será que os profissionais se formaram há muito tempo e esqueceram dos limites da ética?

Ou será que as redações estão tomadas por estagiários que ainda não tiveram contato com a disciplina e, talvez, ainda não tenham a noção de que publicar vídeos daquela natureza é, no mínimo, antiético — nada contra os estagiários. Estão lá para aprender, mas parece não haver profissionais para ensinar.

Não procurei saber de quem foi a responsabilidade imediata pela publicação. Se a “brilhante” ideia foi de profissional formado ou de algum estagiário ou de alguém que alimenta os sites e não passou por uma faculdade de Jornalismo. Certo é que se foi estagiário, o preceptor (professor) não viu. Se foi jornalista profissional, portador de certificado de formação superior em Jornalismo, a situação se agrava mais. E pode ter sido, também, produtor de conteúdo, sem formação em Jornalismo, o que não deixa de ser preocupante.

Está disposto no art. 11, inciso II do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, agosto/2007: “o jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em coberturas de crimes e acidentes”.

Se um vídeo em câmera lenta que detalha o momento da morte das pessoas não é sensacionalismo, eu não sei o que é. Se aquilo não desrespeita as vítimas e seus familiares, eu não sei mais o que desrespeita.

O Jornalismo precisa ser repensado todos os dias. Os estudantes precisam ter contato com a disciplina de ética nos primeiros períodos. Ainda mais em tempos de convergência de mídias. Enquanto isso, cabe aos receptores da mensagem, filtrar o que consomem. Ah, e antes que alguém mencione: esta análise vale, inclusive, para as coberturas que se refiram a casos de pessoas menos favorecidas financeiramente também.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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