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Política

Imagem: Marcello Casal /Agência Brasil

Senadores questionam se Dias foi alvo de retaliação por "ferir interesses"

O ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde afirmou que negociação da Covaxin coube a Élcio Franco

Por Marcello Oliveira

Senadores da CPI da Covid passaram a questionar se o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias teria sofrido algum tipo retaliação por "ferir interesses" de seus então superiores na pasta. O senador Eduardo Braga (MDB-AM) citou diretamente o nome do ex-número 2 do ministério, Élcio Franco, que teria pedido a exoneração de Dias ainda em outubro do ano passado - o que não foi efetivado.

Braga também lembrou que Franco ordenou que fossem concentradas nele todas as tratativas para negociações de imunizantes contra a covid-19 um mês antes da assinatura do contrato para a compra da vacina indiana Covaxin, conforme revelou o Estadão. Em 29 de janeiro, o número 2 da gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello enviou ofício a 16 secretarias e diretorias do ministério, dando ciência sobre a concentração das ações.

O senador disse haver indícios de uma "disputa interna" dentro da pasta, que tinha como alvo especialmente o departamento ocupado por Dias, demitido na semana passada após o policial Luiz Paulo Dominguetti o acusar de ter pedido propina numa negociação de vacinas, sem apresentar provas.

"É uma disputa interna. No mês de outubro do ano passado foi marcado por vários eventos em torno do cargo que o senhor ocupa. O senhor chegou a ser indicado para a Anvisa, retiraram a sua indicação. E no mesmo mês, o coronel Élcio teria pedido sua exoneração a Pazuello", relembrou Braga, que citou ainda uma matéria do Estadão que aponta as suspeitas levantadas num contrato assinado por Dias para compra de 10 milhões de kits de materiais utilizados em testes de covid-19.

Sobre o caso, Dias se defendeu afirmando ter apontado irregularidades no processo antes mesmo do despacho da Diretoria de Integridade do Ministério da Saúde. "Então por que o coronel Élcio toma medida para pedir sua exoneração?", questiona Braga, que fica sem uma resposta do ex-diretor de Logística.

Nesse momento, o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (PSD-AM), também reforçou as dúvidas levantadas por Braga, afirmando que Dias teria "contrariado interesses" dentro da pasta, e por isso passou a ser alvo de denúncias.

"Houve interesse, e você tentando fazer o certo, feriu o interesse de pessoas mais graduadas que você no ministério. Vossa excelência contrariou interesses", disse Aziz a Dias, que novamente afirmou não saber se isso realmente teria acontecido.

"Não consigo dizer se feri ou não feri interesses", responde o ex-diretor de Logística. Insatisfeito com a resposta, Aziz afirmou então que "infelizmente" a CPI teria que acreditar na versão de Dominguetti. "Vamos ter que acreditar no acusador, vossa excelência poderia aqui dizer que interesse o senhor feriu", insistiu o presidente da CPI.

  Negociação de vacina indiana coube a Élcio Franco

O ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias, afirmou também que o coronel Élcio Franco, ex-número 2 da pasta na gestão do general Eduardo Pazuello, foi quem coordenou todo o processo de negociação do governo para aquisição da Covaxin, vacina indiana contra o coronavírus. A compra do imunizante é investigado após um servidor da pasta apontar suspeitas de irregularidades, como pressão de superiores para acelerar a compra e a tentativa de pagamento antecipado.

"No âmbito da covid-19, todas essas tratativas foram feitas exclusivamente na Secretaria Executiva", disse Dias. O ex-diretor, que é ligado ao atual líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR), foi demitido na semana passada em meio às suspeitas de corrupção na pasta.

No depoimento, Dias citou que Élcio centralizou as negociações de vacinas no início do ano. Elcio, que era secretário executivo do ministério, enviou ofício a 16 secretarias e diretorias do ministério, dando ciência sobre a concentração das ações.

Dias também afirmou que não cabia ao seu departamento, mas à Secretaria Executiva, fazer uma pesquisa de preço para saber se o valor cobrado pela Covaxin estava em acordo com o mercado internacional. O preço aumentou de US$ 10 para US$ 15 por dose durante as negociações. O custo por unidade da vacina indiana é o mais alto dentre os imunizantes comprados até agora pelo governo.

"No caso de vacinas covid-19, esse preço já havia sido aferido pela Secretaria Executiva (comandada por Élcio Franco). O Departamento de Logística não participou de nenhuma execução, de nenhuma negociação", afirmou em referência a negociação pelo imunizante indiano.

O Tribunal de Contas da União (TCU) cobrou na segunda-feira (05), do Ministério da Saúde uma série de explicações sobre a compra da Covaxin, entre elas o motivo do aumento no preço e a ausência de tentativas de negociação.

O relator da CPI da Covid, senador Renan Calheiros (MDB-AL), anunciou que o colegiado vai convocar novamente Élcio Franco para depor e também sugeriu uma acareação com Dias. O ex-secretário já havia sido ouvido no início de junho, antes do colegiado focar em irregularidades na compra da vacina indiana.

Para o senador do MDB de Alagoas, embora haja suspeitas sobre Élcio, avaliou que Dias não foi convincente ao dizer que não participava do processo de negociação de vacinas. "As mensagens de e-mails e atuação dos vendedores de vacina demonstram que ele participava das negociações diretamente. O depoente, inclusive, recebeu proposta de venda de vacinas para o governo federal por e-mail e, depois, entrou em contato diretamente com o empresário para tratar do assunto", escreveu o relator em sua manifestação sobre o depoimento.

 

 

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