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Opinião

Imagem: Divulgação

Borba Gato, Ayrton Senna e a derrocada dos heróis sob a cultura do cancelamento

O ato de vandismo cometido à estatua do bandeirante deixa uma certeza: a cultura do cancelamento viaja no tempo

Notícias

Antônio Claret Jr.

Advogado e Vice-Presidente do Instituto Liberal


Recentemente, um grupo desembarcou de um caminhão, espalhou pneus pela via e nos arredores de uma estátua de Borba Gato na zona sul de São Paulo, e ateou fogo. Mais do que isso, muitos se manifestaram nas redes sociais a favor do vandalismo, especialmente expoentes da esquerda. Além deles, claro, muitos brasileiros que afirmam que o bandeirante Borba Gato era fascista e genocida uma vez que, em tese, assassinava indígenas e negros em suas jornadas.

A intenção do artigo não é apontar o quão criminoso é atear fogo em um patrimônio público e, muito menos, esclarecer que se há a vontade da retirada ou substituição da mencionada estatua, isso deve ser debatido democraticamente e não na ilegalidade, como foi feito pelos criminosos. Aqui, pretendemos entender se faz sentido o cancelamento público do bandeirante Borba Gato.

Primeiramente, quem foi Borba Gato? Bandeirantes como Borba Gato eram pioneiros da interiorização brasileira e desbravaram territórios no interior do país e, neste processo, capturaram e escravizaram diversos indígenas e negros. Tais atos estariam associados ao processo de interiorização.

A realidade vivenciada pelos bandeirantes era precária. Eles andavam descalços, vestindo farrapos, e era comum sofrerem de fome, doenças e ataques de animas selvagens e índios hostis. Essa condição das expedições tornava os bandeirantes homens extremamente violentos, ambiciosos e rudes, características muito utilizadas para a escravização de índios e combate aos quilombos.

Quando falamos em capturar, matar e escravizar indígenas e negros, percebemos que se trataria de um bandido assassino nos dias de hoje onde existem máquinas, GPS e tecnologia avançada para facilitar o desbravamento de novas áreas.

Agora, será que haveria outra forma há mais de três séculos? Borba Gato faleceu há mais de 300 anos! Pode a cultura do cancelamento alcançar períodos de séculos atrás nos quais o contexto e realidade eram outros? É extremamente preocupante o que estão fazendo com a nossa história!

Muitas pessoas têm buscado julgar moralmente personagens do passado pela moral dos dias atuais! No campo da Filosofia, a moral é conhecida como o conjunto de valores, como a honestidade, a bondade, a virtude etc., considerados universalmente como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens. Ora, obviamente, a moral de 1700 era totalmente diferente da moral de 2021! Não se pode cancelar uma pessoa que viveu em 1700 com base no conjunto de valores de 300 anos depois!

Temos dois caminhos: um deles é compreendermos que a moral é um conjunto de valores que altera ao longo dos tempos e não apagarmos nossa memória porque o herói de ontem já não atende os valores de hoje. O outro caminho é nos preparamos para cancelamentos futuros que podem parecer absurdos.

Um exemplo? Já pensou se quiserem, daqui a 300 anos, mudarem os nomes dos monumentos em homenagem a Ayrton Senna porque ele vivia de um esporte dependente de petróleo, combustível fóssil, responsável por grande parte das emissões de carbono e, por consequência de mudanças climáticas? Parece absurdo? Pois é.

Explicar esse cancelamento para os brasileiros de 1700, quando os bandeirantes eram imprescindíveis para a colonização nacional também era. Certamente, alguns dirão que não dá para comparar assassinatos a emissões de carbono. Realmente, hoje, em 2021, não dá. Será que em 1700 matar povos que se opusessem à interiorização também era absurdo? É preciso considerar que três séculos mudam toda uma cultura e o conjunto de valores chamado moral.


*Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.

* Esta coluna tem caráter opinativo e não reflete o posicionamento do grupo.
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